Rosângela Costa: meio século dedicado ao artesanato que transforma vidas no Amapá
Há mais de 60 anos, o artesanato brasileiro se manifesta através de práticas como cerâmica, tecelagem, marcenaria, cestaria e pintura, transmitidas tradicionalmente de geração em geração. No Amapá, essa herança cultural ganha vida e propósito nas mãos habilidosas de Rosângela Costa, artesã que há cinco décadas dedica sua vida a transformar materiais simples em obras de arte e, principalmente, em ferramentas de empoderamento feminino.
Das raízes familiares ao reconhecimento nacional
Rosângela iniciou sua jornada ainda na adolescência, aos 14 anos, influenciada pelo exemplo dos pais. "Eu sou de uma família de artesãos. Minha mãe, dona Mundica, era costureira na comunidade. Meu pai, Raimundo Sá, mestre de obras. Eu via o exemplo deles desde pequena", relembra a artesã. Ela destaca como a mãe criava moldes de roupa usando folha de bananeira e espinho de pupunha, enquanto o pai desenhava plantas de casas com perfeição, sem formação acadêmica. "Minha inspiração veio daí", afirma.
Reconhecida como mestre artesã pelo Programa de Artesanato Brasileiro do Governo Federal, Rosângela não apenas aperfeiçoou suas técnicas ao longo dos anos, mas também assumiu o papel de mentora, ensinando outras mulheres a transformar sua realidade através da arte.
Inovação sustentável: do caroço de açaí à fonte de renda
Entre as contribuições mais significativas de Rosângela está a utilização do caroço de açaí, material que antes era descartado e queimado na mata, causando incômodo ambiental. "Eu percebia que o caroço do açaí ficava queimando na mata. Contei até quinze dias aquele caroço de açaí queimando dentro da mata. Aquela fumaça invadindo nossas casas, nosso varal de roupa", descreve. Diante dessa realidade, ela decidiu buscar uma solução: "Eu pensei: 'vou achar uma solução para esse produto' e trazer renda para as mulheres da comunidade, transformando em arte".
Hoje, essa técnica inovadora não apenas reduz o impacto ambiental, mas também se tornou uma importante fonte de renda para diversas famílias no Amapá.
Artesanato como instrumento de empoderamento feminino
Para Rosângela, o maior orgulho não está apenas na beleza das peças criadas, mas no sentimento de empoderamento que cresce na comunidade. "Uma forma de sustentar sem precisar do marido. Quem nunca passou por isso, ter em casa o seu dinheirinho para fazer a sua unha, o seu cabelo, para comprar o seu vestido", explica. Ela enfatiza a importância da independência financeira: "Eu acho que é muito importante, através da arte, nos empoderar como mulheres, sem precisar dos homens".
Como mestre artesã, Rosângela vê seu trabalho como uma missão de preservação cultural e transformação social. "Vai se comprar artesanato porque tem história, cultura, tem valores. Tem toda uma história de preservação e cuidado, e é muito importante também como fonte de renda para outras mulheres", reflete. "Eu fico muito feliz quando as vejo fazendo sucesso, vendendo. Eu digo, como mulher negra, convivendo na comunidade, transmitindo a elas que 'nós podemos'".
Legado que perdura: mais de 50 anos de dedicação
O compromisso de Rosângela Costa mantém vivo não apenas o artesanato tradicional do Amapá, mas também uma cadeia de valor que beneficia diretamente as mulheres locais. Sua trajetória de mais de meio século demonstra como a arte pode ser um poderoso agente de mudança social, promovendo:
- Sustentabilidade ambiental através do reaproveitamento de materiais
- Empoderamento econômico feminino com geração de renda independente
- Preservação cultural com técnicas transmitidas entre gerações
- Fortalecimento comunitário com troca de conhecimentos e apoio mútuo
A história de Rosângela é um testemunho inspirador de como o artesanato vai além da criação de objetos belos - é uma ferramenta de transformação pessoal e coletiva, que continua a escrever novas páginas de esperança e autonomia no Amapá.



