Aumento de tamanduás em áreas urbanas de São Paulo acende alerta ambiental
A presença cada vez mais frequente de tamanduás em áreas urbanas da região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, está sendo interpretada por especialistas como um forte indício de desequilíbrio ambiental. Exemplares da espécie têm sido flagrados com regularidade nas ruas de municípios como Guará, Pedregulho, Franca e no distrito de Bonfim Paulista, principalmente durante o período noturno e próximo a remanescentes de mata.
Fragmentação de habitats força deslocamento dos animais
Vídeos enviados por moradores à EPTV, afiliada da TV Globo, mostram esses animais caminhando por vias públicas. Em um dos casos mais recentes, um tamanduá-mirim foi encontrado no quintal de uma residência em Taiúva, exigindo a intervenção do Corpo de Bombeiros para resgate seguro.
O zootecnista Alexandre Gouvêa, do Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras) de Ribeirão Preto, explica que o avanço desordenado da urbanização eliminou corredores ecológicos que conectavam fragmentos de mata. "Eles não estão invadindo as cidades. Estão tentando passar de uma ilha para outra ilha, de um fragmento de mata para outro, usando um corredor ecológico que já não existe mais", afirma o especialista.
Período de atividade de cupins intensifica movimentação
Gouvêa destaca que, neste período do ano, os cupinzeiros ficam mais ativos, o que atrai os tamanduás em busca de alimento. "As formigas começam a se movimentar mais dentro dos cupinzeiros, e eles conseguem sentir o cheiro de um cupinzeiro a longa distância. É quando saem de um fragmento para outro", detalha.
O especialista ressalta que os fragmentos de mata são pedaços isolados da floresta original, que perderam sua conectividade devido à expansão urbana e agrícola. Essa situação força os animais a atravessarem áreas habitadas, aumentando os riscos de atropelamentos e conflitos.
Riscos para humanos e para a conservação da espécie
Apesar da aparência lenta e inofensiva, os tamanduás representam perigos significativos quando perturbados. "Ele tem garras poderosas nos membros anteriores, principalmente no terceiro dedo. Quando se levanta em posição ereta, parece que vai abraçar, mas na verdade está preparando um ataque que pode perfurar um pulmão humano, de uma criança ou de um cachorro", alerta Gouvêa.
Em 2023, o Cetras recebeu 13 tamanduás vítimas de atropelamento ou ataques de cães. Esse número elevado acende dois alertas graves:
- Risco de extinção local: As fêmeas de tamanduás têm gestação de apenas um filhote por vez. A perda de uma fêmea reprodutora representa um prejuízo ambiental enorme, pois a natureza leva anos para recompor populações.
- Prejuízo ambiental de longo prazo: "A médio prazo, podemos ficar sem essa espécie na região. Quando você perde uma fêmea reprodutora, seja por atropelamento ou ataque de cachorro, é um dano ambiental significativo", enfatiza o zootecnista.
Necessidade de medidas de conservação
A situação exige atenção das autoridades e da população. Medidas como a criação de passagens de fauna, proteção de corredores ecológicos remanescentes e educação ambiental são urgentes para garantir a sobrevivência dos tamanduás e o equilíbrio dos ecossistemas regionais.
A presença desses animais nas cidades não é uma invasão, mas um sintoma claro de que os habitats naturais estão sendo fragmentados além do limite suportável. A conservação dos fragmentos de mata e a reconexão dessas áreas isoladas são essenciais para reverter esse cenário preocupante.
