Queda alarmante de desovas de tartarugas-verde em Fernando de Noronha preocupa pesquisadores
Queda de desovas de tartarugas em Noronha preocupa pesquisadores

Queda alarmante de desovas de tartarugas-verde em Fernando de Noronha preocupa pesquisadores

Pesquisadores registraram uma queda drástica no número de desovas de tartarugas marinhas em Fernando de Noronha, levantando preocupações sobre a conservação da espécie. Até a quarta-feira (11), foram identificados apenas dez ninhos da tartaruga-verde (Chelonia mydas) na ilha, um número extremamente baixo quando comparado ao mesmo período do ano passado, quando haviam sido contabilizadas impressionantes 451 desovas.

Análise das causas da redução

A coordenadora da Fundação Projeto Tamar, Rafaely Ventura, afirmou que pesquisadores ainda estão analisando minuciosamente as causas dessa redução significativa. Segundo ela, o fenômeno não está isolado apenas em Noronha, mas também se manifesta em outras áreas importantes do Atlântico Sul, como a Ilha de Trindade e o Atol das Rocas, onde a temporada igualmente tem apresentado poucos ninhos.

Rafaely Ventura destacou que a temporada passada foi recorde no Brasil, com Noronha registrando 805 ninhos, a maior quantidade em mais de quatro décadas de monitoramento contínuo. "A temporada passada pode ter concentrado dois ciclos reprodutivos em um só período. Por isso tivemos um número tão alto de ninhos. Nesta temporada, a quantidade pode ser menor porque algumas tartarugas podem ter adiantado e desovado antes", explicou a coordenadora.

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Hipóteses em estudo

O monitoramento das tartarugas em Noronha é realizado pela Fundação Projeto Tamar em parceria com o Centro Tamar, órgão vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O pesquisador do Centro Tamar, Renan Lousada, também considera plausível a possibilidade de dois ciclos reprodutivos terem se concentrado em uma única temporada anterior, o que explicaria a atual diminuição.

Outra hipótese que está sendo rigorosamente investigada é a adaptação das tartarugas às mudanças climáticas globais, com um possível retardo do pico de desovas. "Os animais podem optar por desovar mais tarde, durante o período chuvoso em Fernando de Noronha, quando as temperaturas costumam ser mais baixas", elucidou Renan Lousada.

Os estudos aprofundados também revelam que a temperatura ambiental exerce uma influência crucial no sexo dos filhotes. "Acima de 29 °C, a tendência é o nascimento de fêmeas. Abaixo dessa temperatura, aumenta a proporção de machos nos ninhos. As tartarugas podem estar buscando um equilíbrio populacional através desse mecanismo", afirmou o pesquisador.

Contexto climático e predadores

O pico da temporada de nascimento em Noronha tradicionalmente ocorre no período chuvoso. Contudo, neste ano, o inverno ainda não começou na ilha. A Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac) prevê que as chuvas de 2026 devem se intensificar significativamente nos meses de abril e maio, quando a temperatura deve cair consideravelmente.

Pesquisas complementares em Fernando de Noronha também apontam um aumento no número de tubarões-tigre, predadores naturais das tartarugas. No entanto, os estudiosos descartam categoricamente que a redução de ninhos esteja diretamente ligada à recuperação da população desses animais marinhos.

"Descartamos que os tubarões-tigre sejam a causa principal da redução de ninhos. A espécie pode se alimentar de tartarugas, mas o interesse não é tão grande quanto se imagina. O monitoramento contínuo mostra tubarões nadando perto das tartarugas, porém os casos de predação efetiva não são tão frequentes", esclareceu Renan Lousada.

As tartarugas desovam predominantemente à noite, e o número atual de ninhos está muito abaixo do padrão histórico considerado normal para a região. Os pesquisadores continuam vigilantes, coletando dados e analisando todas as variáveis para compreender completamente esse fenômeno ecológico preocupante.

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