Projeto em Taubaté usa criatividade para preservar comportamento selvagem de animais silvestres
Em consultórios veterinários especializados em animais silvestres, a rotina diária apresenta tarefas surpreendentes que vão muito além dos cuidados tradicionais. Preparar picolés refrescantes para onças em dias de calor intenso, oferecer mamadeiras a filhotes resgatados, presentear bichos órfãos com bichinhos de pelúcia e até mesmo criar brincadeiras estimulantes para tartarugas são atividades comuns. Essas práticas fazem parte dos cuidados essenciais realizados em espaços como o Parque Ecológico Selva Viva, localizado em Taubaté, onde profissionais dedicados trabalham incansavelmente na recuperação e no bem-estar de diversas espécies da rica fauna brasileira.
Estratégias inovadoras para o bem-estar animal
Em entrevista exclusiva, o biólogo-chefe do projeto Selva Viva, Marcus Buononato, revelou que as atividades desenvolvidas no local são tanto curiosas quanto pouco conhecidas pelo público em geral. Uma das estratégias mais importantes adotadas pela equipe visa evitar que os animais, incluindo aqueles que não poderão retornar à natureza, se acostumem excessivamente com a rotina do cativeiro. Para isso, são implementadas diversas técnicas de enriquecimento ambiental que incentivam comportamentos naturais.
Durante os períodos de calor extremo, a equipe prepara deliciosos "picolés de sangue" e "milkshakes" especiais para ajudar os animais a se refrescarem. Já no inverno, os recintos recebem quantidades extras de feno, além de cobertores aconchegantes e ambientes aquecidos, garantindo conforto térmico adequado. Grande parte dos filhotes que chegam à instituição está em situação de orfandade, e para minimizar o impacto emocional da perda materna, muitos recebem bichinhos de pelúcia e são alimentados cuidadosamente com mamadeiras ou pequenas seringas.
Estimulando comportamentos naturais
Para manter os animais sempre ativos e engajados, a equipe do Selva Viva desenvolve uma série de atividades criativas:
- Esconder e prender alimentos dentro de caixas de papelão e em fios, incentivando os animais a "caçarem" sua comida.
- Utilizar brinquedos variados, como bolas coloridas e boias flutuantes, para promover interação e movimento.
- Criar objetos com penas, semelhantes a espanadores, que despertam a curiosidade e o instinto de exploração.
- Implementar um "varal de alimentos" para tartarugas, estimulando-as a se movimentarem durante as refeições.
Buononato explica detalhadamente: "A gente coloca caixas de papelão com o alimento dentro, para que o animal destrua a caixa e encontre a comida. Fazemos isso também com as aves, colocando alimentos dentro de pedaços de madeira. Para o tamanduá, utilizamos canos plásticos cheios de furos". O objetivo principal dessas iniciativas é estimular comportamentos naturais essenciais, como procurar alimento e interagir com o ambiente, preservando assim a bagagem selvagem dos animais.
Espécies curiosas e contribuições científicas
Entre os habitantes mais intrigantes do Selva Viva está o monstro-de-gila, um lagarto raro encontrado principalmente nos Estados Unidos e no México. Apesar de ser venenoso e potencialmente perigoso para humanos, este animal desempenhou um papel crucial para a ciência, contribuindo para o desenvolvimento de medicamentos utilizados no tratamento da diabetes tipo 2, incluindo as famosas canetas injetáveis. Outro exemplo notável é a cobra jararaca, cujo veneno foi fundamental na criação de remédios para controlar a pressão alta.
Educação ambiental e valorização da fauna
No parque, aves e felinos costumam impressionar os visitantes adultos, mas as crianças frequentemente demonstram maior fascínio por espécies menos convencionais. Quando questionados sobre qual animal mais gostaram durante a visita, muitos pequenos visitantes mencionam o sapo-cururu. Buononato comenta entusiasticamente: "Para você gostar, você precisa conhecer. Esse é o nosso intuito aqui: mostrar a curiosidade, mostrar a diversidade, para que você valorize. A partir do momento que você tem uma valorização, você vai cuidar".
O biólogo vai além, defendendo a importância deste anfíbio: "Eu, como biólogo, considero o sapo-cururu o melhor amigo do homem, melhor que o cachorro. Porque o cachorro não come cobra, não come aranha, não come escorpião, não come barata. E o sapo-cururu, que às vezes está ali no quintal de casa, é um animal importantíssimo para o controle de pragas".
O papel do Selva Viva na preservação
O Selva Viva funciona como um centro de reabilitação para animais silvestres resgatados de situações de maus-tratos ou apreendidos por órgãos públicos. Após receberem tratamento adequado, parte desses animais é devolvida à natureza ou encaminhada para outras instituições especializadas. Desde 2016, o local também possui licença para operar como zoológico aberto à visitação pública, combinando conservação com educação ambiental.
Segundo Buononato, aproximadamente 99% dos animais que vivem atualmente no Selva Viva foram criados em ambientes artificiais, o que dificulta significativamente ou até mesmo impede sua reintrodução na natureza. Por isso, o trabalho contínuo de enriquecimento ambiental e estímulo comportamental torna-se ainda mais crucial para garantir uma vida digna e saudável a esses seres.
Através de criatividade, atenção meticulosa e conhecimento técnico aprofundado, os profissionais do Selva Viva demonstram que é possível oferecer qualidade de vida excepcional aos animais silvestres, enquanto preservam suas características selvagens e contribuem para a conscientização ambiental da sociedade.



