Onça-pintada Jack faz história com primeira transfusão de sangue da espécie no Brasil
Jack, uma onça-pintada de 18 anos que sofre de doença renal crônica, entrou para a história da medicina veterinária brasileira no dia 19 de março. O felino, que reside no Zoológico de Sorocaba, no interior de São Paulo, tornou-se o primeiro de sua espécie a passar por uma transfusão de sangue em território nacional. O procedimento inédito foi necessário para que o animal pudesse iniciar seu tratamento médico adequado.
História e adaptação no zoológico
Nascido em 2008 no estado do Pará, o macho idoso chegou ao Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros em abril de 2023. No local, passou a fazer companhia para Vitória, uma fêmea com hidrocefalia que vive na instituição há 14 anos. Segundo informações da prefeitura municipal, após um período inicial de adaptação, os dois felinos convivem harmoniosamente, interagindo de forma positiva e sem registros de conflitos.
Jack é descrito pela equipe do zoológico como um animal tranquilo, que passa grande parte do dia descansando em áreas sombreadas. Diferentemente de sua companheira Vitória, ele não demonstra interesse por atividades aquáticas. Sua alimentação sempre foi adequada, com preferência marcante por carne bovina.
Procedimento médico inovador
Devido à doença renal crônica, Jack desenvolveu anemia severa que impedia o início da hemodiálise, tratamento essencial para compensar a falha de seus rins. A solução encontrada pela equipe veterinária foi recorrer ao sangue de uma onça-pintada saudável para realizar uma transfusão.
No dia 13 de março, Jack foi transportado ao Centro de Medicina e Pesquisa em Animais Selvagens (Cempas), localizado em Botucatu, também no interior paulista. No centro especializado, recebeu sangue de Ruana, uma onça-pintada fêmea saudável do Zoológico de São Paulo. O procedimento durou aproximadamente duas horas e foi considerado um sucesso completo pela equipe médica.
O médico veterinário Gabriel Correa de Camargo, que coordenou a transfusão, explicou que Jack permanecerá temporariamente em Botucatu para continuar seu tratamento. O Jack vai ficar aqui até se estabilizar. Ainda estamos avaliando se ele vai precisar de hemodiálise ou não. Ele está se recuperando gradualmente, afirmou o profissional.
Comportamento e tratamento contínuo
O temperamento dócil do animal tem facilitado significativamente o processo de recuperação. Ele é relativamente manso. Quando nos aproximamos, ele vem cheirar e interagir. É um animal acostumado à presença humana, o que é muito benéfico para facilitar o manejo clínico, complementou Camargo.
O tratamento atual inclui administração de soro intravenoso para hidratação e medicamentos para controlar possíveis náuseas, sendo ajustado diariamente conforme avaliação da equipe veterinária. A expectativa é que, com os cuidados adequados, Jack possa viver mais alguns meses ou anos com qualidade de vida, superando inclusive a expectativa média de 20 anos para a espécie sob cuidados humanos.
Importância da conservação da espécie
A onça-pintada é uma espécie ameaçada de extinção que integra um programa nacional de conservação, determinando o destino dos animais entre instituições participantes. O tempo que Jack permanecerá no Zoológico de Sorocaba será definido conforme as diretrizes desta iniciativa conservacionista.
Cristina Harumi Adania, médica veterinária da Associação Mata Ciliar de Jundiaí, destacou a importância ecológica fundamental da onça-pintada. Ela ocupa o topo da cadeia alimentar e sua presença é indicadora da qualidade ambiental. Se retiramos a onça-pintada do ambiente natural, causamos desequilíbrio ecológico significativo, explicou a especialista.
O Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros foi fundado em 1968 e recebe verba municipal para manter as espécies preservadas. Seu objetivo principal é promover empatia entre seres humanos e animais, além de trabalhar na reprodução para eventual reintrodução de espécies na natureza. A instituição oferece entrada gratuita e funciona de terça-feira a domingo, das 9h às 17h, na Rua Theodoro Kaisel, número 883, no bairro Vila Hortência em Sorocaba.



