Onça-pintada é flagrada em caçada inédita na Estação Ecológica Rio Acre, no Acre
Um registro raro e emocionante foi capturado por servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) na última terça-feira (3). Pela primeira vez, uma onça-pintada foi flagrada durante uma caçada na Estação Ecológica Rio Acre (Esec), uma unidade de conservação localizada em Assis Brasil, no interior do estado do Acre. O momento histórico ocorreu às margens do Rio Acre e foi documentado em vídeo pela equipe do instituto.
O momento da caçada e a fuga do porco-do-mato
Nas imagens registradas, é possível observar o majestoso felino emergindo das águas do Rio Acre e correndo em direção a um porco-do-mato, em uma tentativa clara de predação. O porco-do-mato, no entanto, demonstrou agilidade e velocidade, conseguindo escapar do ataque ao atravessar para o outro lado do manancial. Os servidores do ICMBio, que estavam em uma área mais acima do rio, gravaram toda a cena com entusiasmo e surpresa.
No vídeo, é possível ouvir exclamações como "Meu Deus!! Ela vai pegar o porco? Você está filmando? Gente não acredito nisso", refletindo a emoção do grupo diante do espetáculo natural. A chefe da Esec Rio Acre, Lívia Chiavegatti, explicou que, no momento do registro, parte da equipe estava envolvida em atividades de pesquisa nas trilhas da unidade de conservação, enquanto outros servidores permaneciam na base, a aproximadamente 150 metros de onde a onça estava.
Primeiro registro de onça-pintada na unidade e contexto da pesquisa
Segundo Lívia Chiavegatti, este foi o primeiro registro de onça-pintada na Estação Ecológica Rio Acre. Em maio de 2024, uma onça-parda havia sido flagrada na mesma unidade, mas a aparição da onça-pintada representa um marco inédito. "Todos os anos fazemos um monitoramento da Unidade de Conservação, aliás, havíamos feito registros fotográficos de onças-pardas em anos anteriores, entretanto, essa é a primeira vez que conseguimos registrar uma onça pintada, principalmente tão perto da base de onde acampamos", destacou a chefe da Esec.
O avistamento ocorreu durante uma pesquisa de campo da pós-graduação em ecologia, realizada por meio de uma parceria entre a Universidade Federal do Acre (Ufac) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisadores da UFRJ estavam no local para coleta de dados, e foi justamente um grupo que trabalhava na base quem avistou a onça-pintada.
Emoção dos pesquisadores e importância do avistamento
A pesquisadora da UFRJ, Camila dos Santos de Barros, que estava no grupo que flagrou a caçada, descreveu a experiência como profundamente emocionante. "Fiquei tremendo da cabeça aos pés de tanta emoção. Faço trabalho de campo há mais de vinte anos e nunca tinha tido a sorte de avistar uma onça pintada. Ver a natureza assim, com toda sua complexidade e força, ao vivo é um privilégio", relatou Camila.
Lívia Chiavegatti ressaltou que a aparição do felino é um sinal positivo, indicando que a unidade de conservação funciona como um refúgio seguro para animais silvestres. "Acreditamos que a frequência de avistamentos seja um excelente indicativo de boa preservação do território, onde cumprimos nosso papel de guardiões", afirmou. A Estação Ecológica abriga uma rica biodiversidade, incluindo espécies como onça-parda e pintada, antas, preguiças, araras e diversos tipos de macacos.
Estado de conservação da onça-pintada e da Estação Ecológica Rio Acre
A onça-pintada é uma espécie ameaçada de extinção, dependente de políticas públicas para sua proteção. Estima-se que existam menos de 300 indivíduos em toda a Mata Atlântica, segundo dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). O registro no Acre, portanto, ganha ainda mais relevância para os esforços de conservação.
A Estação Ecológica Rio Acre possui uma área de 79.395,22 hectares praticamente intactos, sendo um território crucial para a preservação da flora e fauna acreana. Criada em 2 de junho de 1981, a unidade está localizada no município de Assis Brasil, fazendo divisa com o Peru. Por ser uma das unidades mais isoladas do Brasil, quase 100% de seu território está preservado, sem registros significativos de desmatamento, exceto nas áreas de apoio para acampamento.
Além de abrigar uma imensa biodiversidade, a Esec Rio Acre protege parte significativa das cabeceiras do rio Acre, essencial para o abastecimento de municípios como Brasiléia, Epitaciolândia, Xapuri e a capital Rio Branco. A unidade também tem como objetivo estimular a pesquisa, recebendo estudos em diversas áreas, como botânica, entomologia, limnologia, herpetologia, ornitologia, mastozoologia e paleontologia.
O entorno da estação inclui as terras indígenas Mamoadate e Cabeceira do Rio Acre, também preservadas, reforçando o caráter de santuário ecológico da região. Este registro inédito da onça-pintada não apenas emociona pesquisadores e conservacionistas, mas também evidencia o sucesso das ações de proteção ambiental em uma das áreas mais remotas e importantes do país.



