Médico registra encontro raro com onça-parda a 15 metros em Barretos, SP
Médico filma onça-parda a 15 metros em Barretos, SP

Encontro impressionante entre médico e onça-parda em Barretos gera registro único

Um momento extraordinário de contato com a vida selvagem foi capturado na zona rural de Barretos, no interior de São Paulo. No dia 23 de janeiro, o médico cirurgião ortopedista Ricardo Marzola conseguiu filmar uma onça-parda, também conhecida como Puma concolor, a uma distância aproximada de apenas 15 metros. O flagrante ocorreu a cerca de 150 metros de sua residência, localizada no setor oeste do município, a 8 quilômetros do centro urbano.

Observação prévia e surpresa no encontro próximo

Ricardo Marzola relata que já vinha observando rastros do animal na região há alguns meses, mas nunca imaginou que teria um encontro tão próximo e com tempo suficiente para registrar tudo em vídeo. “Há alguns meses que eu estava avistando os rastros dessa onça. Esperava um dia topar com uma, mas não tão de perto. Consegui ficar uns 10 minutos próximo, a ponto de fazer as filmagens”, explica o médico. Ele descreve que o primeiro momento foi de surpresa total. “No início eu assustei e não acreditei no que estava vendo. Levei alguns segundos até concretizar a imagem. Depois veio o raciocínio de não correr para não despertar o instinto de ataque no animal”.

Mantendo a calma, Ricardo percebeu que a situação era segura, pois a onça não demonstrou comportamento agressivo. “De perto é muito mais linda. Fiquei a poucos metros dela. Ela parou e ficou me olhando. Eu não corri para não desencadear o instinto de ataque, e deu certo”. Anteriormente, ele já havia avistado onças-pardas na região, mas sempre a distâncias maiores, geralmente acima de 50 metros.

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Comportamento incomum e análise de especialista

Para o biólogo Frederico Lemos, do Programa de Conservação Mamíferos do Cerrado (PCMC) e professor da Universidade Federal de Catalão, o comportamento registrado no vídeo é altamente incomum. “Esse comportamento não é o esperado para encontros entre onças-pardas e pessoas. Na maioria das vezes, elas evitam qualquer contato, principalmente visual. Na pesquisa de campo, é muito raro a gente conseguir visualizar uma onça-parda, muito menos filmar”, destaca o pesquisador. Ele explica que a espécie é conhecida por ser muito tímida e furtiva, sendo chamada na literatura de ‘gato-fantasma’ devido à sua capacidade de se esconder.

Analisando as imagens, Frederico acredita que o animal pode ser um indivíduo jovem, já em fase subadulta. “A cabeça parece pequena e o corpo não é muito robusto. Além disso, o comportamento curioso também sugere um animal jovem. Adultos geralmente são mais ressabiados e evitam ficar olhando para as pessoas”. Nessa fase, é comum que o animal esteja em processo de dispersão, explorando novos territórios, já que os machos não participam do cuidado parental, deixando essa responsabilidade para as mães.

Riscos e explicações para a presença próxima a residências

Apesar de ser um grande predador, ataques de onças-pardas a humanos são extremamente raros. No caso de Barretos, o comportamento da onça indicava tranquilidade, sem sinais de caça. “Ela demonstra curiosidade e se afasta devagar. Em nenhum momento o animal mostra comportamento de caça”, afirma Frederico. No entanto, ele alerta que a aproximação deve ser evitada, pois todo animal pode reagir de forma imprevisível em certas situações, como quando acuado ou protegendo filhotes.

A presença do animal próximo a uma residência rural tem explicação ecológica. Com a substituição da vegetação natural por áreas agrícolas no interior paulista, as onças-pardas acabam se deslocando por corredores ecológicos, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e fragmentos de mata. “Casas antigas geralmente ficam perto de cursos d’água, que são áreas preservadas. Então o animal pode simplesmente estar passando por um corredor de mata e acabar cruzando com uma casa”, esclarece o biólogo.

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Fragmentação de habitat e sorte no registro

Frederico Lemos ressalta que as onças-pardas necessitam de territórios vastos, que podem ultrapassar 150 mil a 200 mil hectares para sobreviver. Com o avanço da ocupação humana no campo, esses espaços ficam cada vez mais fragmentados, forçando os animais a circularem por habitats remanescentes e aumentando as chances de encontros com pessoas. “A população humana na zona rural vem crescendo e os ambientes ficam cada vez mais ocupados. O animal precisa circular pelo que resta de habitat disponível e acaba esbarrando com as pessoas”.

Mesmo com essa pressão ambiental, encontros como o registrado em Barretos continuam sendo raros. Para o pesquisador, o vídeo representa um momento especial e valioso da vida selvagem. “Foi um registro lindo. Ele foi muito sortudo de conseguir filmar uma onça-parda com tanta tranquilidade”, conclui Frederico, enfatizando a importância de preservar esses animais e seus habitats para futuras gerações.