Fotógrafo brasileiro registra aves raras em Cuba, incluindo a menor do mundo
Fotógrafo brasileiro registra aves raras em Cuba, incluindo menor do mundo

Fotógrafo brasileiro desvenda a rica avifauna cubana em expedição desafiadora

O desejo de conhecer Cuba acompanhava o fotógrafo de natureza João Quental há anos, não apenas pela riqueza ornitológica, mas também pela história e cultura do país caribenho. Em janeiro, ao lado da esposa Raffaella, ele transformou esse sonho em realidade, embarcando para Havana em um momento particularmente delicado, praticamente junto ao último navio de combustível enviado pelo México durante o agravamento da crise local.

Uma Cuba pouco conhecida revelada através das lentes

A viagem, além de desafiadora, revelou uma faceta pouco conhecida da ilha, onde a escassez paradoxalmente contribui para a preservação de ambientes naturais. A expedição concentrou-se na região central e sul, especialmente na Baía dos Porcos, em Matanzas, área que ainda mantém trechos relativamente preservados.

"Como a ilha passou por um processo intenso de monocultura, principalmente de açúcar, uma parte expressiva do ambiente foi completamente modificada. Mas essa região ainda manteve áreas de mata, mangues e savanas que abrigam uma boa diversidade de aves", explica Quental.

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O mosaico de habitats e suas joias aladas

Entre manguezais, savanas e fragmentos de mata, o fotógrafo encontrou um verdadeiro mosaico de habitats que abriga uma diversidade impressionante. Um dos pontos altos foi a visita à Ciénaga de Zapata, o maior pântano do Caribe, onde flamingos, garças, pelicanos e maçaricos dominam a paisagem com sua abundância de vida.

Ao longo da jornada, João Quental conseguiu observar e fotografar cerca de 100 espécies residentes, além de diversas aves migratórias. Entre os principais objetivos estavam algumas das espécies mais emblemáticas da ilha, todas encontradas durante a expedição.

As estrelas da avifauna cubana

  • Trogon-cubano ou tocororo: Ave nacional de Cuba, com cores que remetem à bandeira do país, é endêmica do arquipélago e ocorre em áreas florestais por toda a ilha.
  • Colibri-abelha-cubano ou Zunzunzito: Detentor do título de menor ave do mundo pelo Guinness World Records, com menos de 2 gramas, é endêmico de Cuba e sua presença está diretamente ligada à disponibilidade de flores.
  • Zunzún: Beija-flor comum e amplamente distribuído em Cuba, presente em praticamente qualquer ambiente com vegetação.
  • Toda-cubana ou Cartacuba: Pequena ave colorida e carismática, endêmica de Cuba e relativamente abundante em diferentes habitats da ilha.

Espécies únicas e ameaçadas registradas

A expedição também proporcionou registros importantes de espécies endêmicas e ameaçadas, como a carriça-de-Zapata, restrita ao pântano de Zapata e considerada globalmente ameaçada. Além dela, foram documentadas a corujinha-cubana, o papagaio-cubano (quase ameaçado), o cuco-lagarto e o pica-pau-das-Índias-Ocidentais.

Espécies migratórias também marcaram presença, reforçando a importância de Cuba como corredor ecológico entre continentes. "Cuba é uma rota importante para as chamadas 'mariquitas', pequenos passeriformes vindos da América do Norte", destaca Quental.

A relação dos cubanos com a natureza

Mais do que a biodiversidade, a relação dos cubanos com o meio ambiente chamou a atenção do fotógrafo. "Existem parques nacionais e algumas iniciativas privadas, mas fica claro que eles sofrem com a falta de recursos, como aliás tudo no país", observa.

"A escassez de combustível e recursos, de certa forma, reduz a pressão humana sobre o meio ambiente. A população acaba sendo, de certo modo, obrigada a ser ecologicamente correta", completa Quental, destacando o paradoxo preservacionista.

Um destino singular para observação de aves

Para o fotógrafo brasileiro, a experiência em Cuba revela um destino singular para a observação de aves: uma ilha que, apesar das transformações históricas e desafios atuais, ainda guarda importantes refúgios de biodiversidade.

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"Foi um encontro com uma natureza resiliente e com um povo que, mesmo diante das dificuldades, mantém uma relação próxima e colaborativa com o ambiente ao seu redor", reflete Quental sobre uma expedição que foi muito mais do que uma simples jornada fotográfica, mas sim uma imersão em um ecossistema único e sua complexa relação com a sociedade cubana.