A fidelidade no reino animal vai muito além do romantismo. Para diversas espécies, manter um parceiro fixo é uma estratégia que eleva as chances de sobrevivência dos filhotes e, consequentemente, da própria espécie. Embora rara entre mamíferos, a monogamia é comum entre aves. Os humanos ocupam uma posição intermediária, conforme estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, que indica que os padrões de parentesco humano se assemelham aos de mamíferos socialmente monogâmicos, com predominância de filhos do mesmo casal, apesar da diversidade cultural. Esse comportamento explica por que, em diferentes espécies, a formação de pares duradouros está ligada à necessidade de cooperação na criação da prole.
Parceria para a vida toda
A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) é um dos exemplos mais emblemáticos de fidelidade na natureza brasileira. De acordo com pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), esses animais formam casais monogâmicos e mantêm o vínculo mesmo fora do período reprodutivo. Além disso, são fiéis ao local de reprodução, podendo utilizar a mesma cavidade em árvores por mais de uma década. O cuidado com os filhotes é compartilhado: macho e fêmea dividem tarefas como escolha e manutenção do ninho, o que aumenta as chances de sucesso reprodutivo. Essa estratégia é essencial para a espécie, que depende de árvores específicas para se reproduzir e apresenta baixo número de filhotes por ciclo.
Fidelidade com ressalvas
Entre os mamíferos, o comportamento pode ser mais flexível. É o caso do lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), típico do Cerrado brasileiro. Segundo estudo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), machos e fêmeas compartilham o mesmo território durante o período reprodutivo, mas mantêm hábitos mais solitários fora dessa fase. A pesquisa mostra que a fêmea aumenta a tolerância à presença do macho durante o período fértil. Análises como a citologia vaginal ajudam a identificar quando ocorre a aceitação da cópula, evidenciando a relação entre hormônios e comportamento.
O que a ciência explica
A monogamia tende a surgir quando criar filhotes exige alto investimento de tempo e energia. Segundo o estudo publicado na Proceedings of the Royal Society B, espécies monogâmicas apresentam maior tendência a comportamentos cooperativos, o que favorece a sobrevivência da prole. Em aves como a arara-azul, isso envolve proteger ninhos e alimentar filhotes por longos períodos. Já em mamíferos como o lobo-guará, o comportamento pode variar conforme fatores como território e disponibilidade de alimento. "Vale reforçar que a ausência da monogamia também pode favorecer a variabilidade genética e a permanência da espécie com mais variabilidade. Não existe uma regra, ambos os casos podem ser favoráveis em determinadas circunstâncias", diz Alfonso Rodrigues, biólogo especialista em comportamento animal.
Estratégia de sobrevivência
Apesar de parecer um comportamento “romântico”, a fidelidade na natureza tem uma função prática. Manter um parceiro fixo pode significar mais proteção, melhor cuidado com os filhotes e maior chance de sucesso reprodutivo — fatores decisivos para a manutenção das espécies em ambientes naturais.



