Há aproximadamente três anos, um cachorro magro e visivelmente machucado surgiu nas ruas do centro do município de Santana, localizado no estado do Amapá. O animal apresentava um ferimento significativo em uma de suas orelhas, condição que rapidamente despertou a compaixão dos residentes locais. Foi então acolhido pela Vila Xurupita, um grupo de confraternização de amigos que foi fundado na cidade em 1991, tornando-se um ponto de referência comunitária.
Da dor ao carinho: a transformação de Orelha
Desde o seu acolhimento, o cão passou a ser carinhosamente chamado de Orelha, um nome que reflete sua marca distintiva. Ele evoluiu de um estado debilitado para se tornar o mascote oficial da comunidade, participando ativamente das festividades e interagindo diariamente com os moradores. O vendedor Evandro Santos, um dos integrantes da Vila Xurupita, relembra com afeto a chegada do animal.
"Ele chegou bastante debilitado, após uma briga na rua que resultou no ferimento na orelha. Cuidamos dele, tratamos a lesão e, naturalmente, começamos a chamá-lo de Orelha. Com o tempo, ele foi se integrando, ficando conosco, e hoje é nosso fiel escudeiro. Participa de todas as confraternizações, do carnaval e está sempre ao nosso lado", conta Evandro, destacando o vínculo criado.
Uma rotina de cuidados e celebrações
Nos fins de semana, Orelha circula livremente pela área, recebendo comida e carinho de diversos moradores, que o tratam como um membro valioso da comunidade. Durante a semana, ele é acolhido em restaurantes da região, onde também ganha refeições regulares, garantindo seu bem-estar contínuo. Sem um dono definido, Orelha se transformou em um símbolo poderoso de afeto e cuidado coletivo, demonstrando como a solidariedade pode impactar positivamente a vida de um animal abandonado.
"Não é porque é um cão abandonado que a gente vai maltratar. Ele é dócil, carinhoso, e nós o temos como nosso mascote. É essencial cuidar dos cãozinhos abandonados", enfatiza um dos cuidadores, refletindo a filosofia da comunidade.
Orelha no carnaval: integração total
Em 2025, a integração de Orelha atingiu um novo patamar durante o carnaval de Santana. Ele ganhou um abadá personalizado e participou ativamente das festividades da comunidade. "No lançamento do nosso carnaval, ele estava no meio de tudo. Demos um abadá para ele, e ele brincou a festa inteira usando a fantasia", relata Evandro, ilustrando como o animal se tornou parte inseparável das tradições locais.
Contraste com a realidade de maus-tratos
A história inspiradora de Orelha em Santana se destaca em meio a episódios preocupantes de crueldade contra animais registrados em outras regiões do Brasil. Em Florianópolis, Santa Catarina, um cão comunitário também chamado Orelha foi vítima de espancamento por adolescentes, caso que gerou ampla revolta nacional. No próprio Amapá, a violência contra animais é uma questão séria.
Em Macapá, por exemplo, um homem foi indiciado após atacar dois cães com um facão, resultando na morte imediata de um e na decepação de uma pata do outro, que necessitou de cirurgia adicional para amputação. Esses incidentes destacam a urgência de ações protetivas, enquanto a experiência de Orelha na Vila Xurupita serve como um exemplo luminoso de como o carinho e a solidariedade podem transformar destinos.
O legado de Orelha: mais que um mascote
Para os moradores de Santana, Orelha transcende a simples condição de um animal de estimação. Ele é visto como um integrante vital da comunidade, um símbolo de união e compaixão que inspira cuidados contínuos e respeito pelos seres vivos. Sua jornada de abandono para aceitação reforça valores de cidadania e responsabilidade social, mostrando que pequenos gestos podem gerar impactos profundos.
Enquanto casos de maus-tratos a animais, como os registrados no Amapá e em outras partes do país, continuam a alarmar a sociedade, a história de Orelha oferece uma narrativa de esperança. Ela prova que, mesmo em contextos urbanos, é possível construir redes de apoio que garantam dignidade e afeto aos animais em situação de vulnerabilidade.