Brasileira no Japão revela 'canto' de aves livres em vídeo após 3 anos de registros
Brasileira no Japão revela canto de aves em vídeo após 3 anos

Brasileira no Japão transforma paixão por aves em registro histórico de vocalizações

Há aproximadamente oito anos vivendo no arquipélago japonês, a brasileira Aline Horikawa transformou seu amor pela natureza em um acervo visual e sonoro de valor inestimável. Acostumada a observar e documentar a fauna desde sua época no Brasil, ela manteve esse hobby fascinante mesmo após cruzar oceanos. Agora, após meticulosa organização, a observadora lançou um vídeo extraordinário que concentra três anos de registros focados em um aspecto particularmente encantador: o canto das aves asiáticas em seu habitat natural.

Da observação casual à compilação sistemática

Durante seus momentos de lazer, Aline pega sua câmera e parte em busca de encontros especiais com a vida selvagem. Esses registros, feitos de maneira simples e acessível, são compartilhados nas principais plataformas online de observação de aves do mundo. Sua missão é clara: revelar a beleza das espécies e de seus ecossistemas, inspirando mais pessoas a se conectarem com a natureza através da observação.

Inicialmente, os vídeos eram postados de forma esporádica, sem um tema unificador. Foi ao reorganizar os arquivos em seu disco rígido que Aline percebeu a riqueza do material focado especificamente nas vocalizações das aves. "Achei bonito reuni-los num único material e resolvi editar e postar, para que as pessoas pudessem conhecer melhor os cantos das aves do Japão", explica a brasileira. Para este projeto, ela selecionou apenas espécies vocalizando, mas possui centenas de registros de aves em vida livre, realizados por ela e seu marido.

O desafio da captura e a geografia dos registros

A paciência é uma virtude essencial neste trabalho. Dependendo da espécie, o registro pode exigir longos períodos de espera. Muitas aves são migratórias, aparecendo apenas em épocas específicas do ano, o que pode significar aguardar um ano ou mais por uma única gravação. Aline e seu marido residem na província de Shiga, localizada em Honshu, a maior ilha do Japão. A maioria dos registros ocorreu nessa região, inclusive no próprio quintal de sua residência.

A exceção notável foi o grou-japonês (Grus japonensis), gravado na ilha de Hokkaido, ao norte do país. "Grande parte das imagens foi gravada em parques, áreas abertas, margens de rios ou no topo de montanhas. Nesses locais, normalmente não é necessário um longo tempo de espera. Muitas vezes estamos apenas observando e a cena acontece de forma natural, a poucos metros de nós", relata Aline, destacando a imprevisibilidade e a magia desses encontros.

As espécies destacadas e um símbolo de resistência

O vídeo final, com quase dez minutos de duração, compila mais de 20 espécies. A maioria não é exclusiva do Japão, podendo ser encontrada em outros países asiáticos devido a seus hábitos migratórios ou por serem residentes comuns. Espécies endêmicas, como o faisão-verde (Phasianus versicolor), não foram incluídas nesta edição por falta de registros de vocalização no acervo.

Entre as favoritas de Aline, destaca-se o tordo-japonês ou sabiá (Turdus cardis). "Eu sempre ouvia seu canto durante a migração, mas não conseguia filmá-lo. Até que, em uma manhã, no topo de uma montanha, ele apareceu em um galho limpo, cantando; foi um momento inesquecível", emociona-se a observadora. Outro destaque é a corruíra (Troglodytes troglodytes), uma espécie muito ativa, porém difícil de registrar com qualidade, e o olho-branco-japonês (Zosterops japonicus), comum em parques urbanos.

Mas é o grou-japonês que carrega um simbolismo profundo. Considerado um "Tesouro Natural Especial" do país, essa ave representa amor, longevidade e felicidade na cultura local. Sua história é marcada por superação: entre o final do século 19 e início do 20, esteve à beira da extinção devido à caça, drenagem de pântanos e invernos rigorosos. Redescoberto em 1920 com menos de 20 indivíduos, sua população saltou para mais de 1.500 hoje, graças à criação do Parque Nacional Kushiro Shitsugen e aos esforços de conservação da comunidade local.

Um legado de conexão e conservação

"Registrar aves em vida livre é sempre um exercício de paciência, respeito e admiração pela natureza. Cada encontro é único e imprevisível. Muitas vezes o maior presente não é a imagem em si, mas a experiência de estar no local, observando", reflete Aline. Seu trabalho vai além da documentação; é um convite à conexão e à conscientização. Ela espera que o vídeo ajude as pessoas a valorizarem as aves do Japão e a importância crucial de preservar seus habitats.

O vídeo completo com as vocalizações está disponível no canal de Aline no YouTube, servindo como testemunho da beleza sonora da natureza asiática e do dedicado trabalho de uma brasileira que cruzou o mundo para compartilhar sua paixão.