Imagens de câmeras corporais de PM revelam contradições em ação que terminou com morte de mulher
As imagens registradas pelas câmeras corporais e os depoimentos dos policiais militares envolvidos na ação que resultou na morte de Thawanna Salmázio, ocorrida em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, no dia 3 de abril, apresentam graves contradições e divergências. A análise exclusiva do material demonstra inconsistências desde o momento inicial da abordagem até o instante do disparo fatal.
Sequência de eventos e principais divergências
A confusão teve início durante a madrugada, quando Thawanna e seu marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, caminhavam de mãos dadas pela Rua Edimundo Audran. Uma viatura da Polícia Militar em patrulhamento passou pelo local, dando início a uma sequência de eventos que culminaria em tragédia. Os policiais Yasmin Cursino Ferreira, que efetuou o disparo que matou a vítima, e Weden Silva Soares, que conduzia a viatura e iniciou a discussão com o casal, foram afastados das atividades operacionais até a conclusão das investigações.
A análise detalhada das imagens e depoimentos revela cinco pontos principais de contradição:
- Esbarrão no retrovisor: Os policiais alegam que Luciano se desequilibrou e bateu o braço no retrovisor da viatura. Contudo, as imagens mostram apenas um leve esbarrão, sem qualquer indicação visual de desequilíbrio ou impacto significativo.
- Motivo da abordagem: No boletim de ocorrência, os PMs afirmam que retornaram para verificar se estava tudo bem com o homem. Entretanto, o vídeo da câmera corporal mostra o soldado Weden dando ré com o veículo e questionando agressivamente o casal: "a rua é lugar para você estar andando, ca*****?".
- Início da discussão: A versão policial sustenta que o homem começou a gritar e reclamar, dando início ao desentendimento. As imagens, porém, indicam que foi Thawanna quem tentou argumentar primeiro, sendo somente após sua intervenção que a discussão efetivamente começou.
- Suposta agressão: De acordo com os relatos dos PMs, Thawanna partiu para cima da policial Yasmin e desferiu um tapa em seu rosto. Nas gravações disponíveis, é possível observar a policial se aproximando e discutindo com a vítima, mas não há confirmação visual clara da alegada agressão física.
- Momento do disparo: A narrativa dos policiais aponta que foi necessário usar a força para conter a agressão e impedir que Thawanna pegasse a arma da PM. No vídeo, contudo, só é possível ouvir o som do disparo, sem imagens que comprovem a versão apresentada.
Especialistas apontam sucessão de abusos e falhas protocolares
Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e pesquisador em segurança pública, o episódio representa um "absurdo" que não segue nenhum protocolo estabelecido pela corporação. Segundo sua avaliação, houve uma sequência de abusos que culminou na morte de Thawanna, caso que, em sua opinião, deveria ser investigado como homicídio qualificado por motivo fútil.
"É abuso desde o começo. O linguajar que [o policial] usa com a pessoa, o vídeo mostra. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal", afirma o especialista, que destaca ainda que os abusos continuaram mesmo após o disparo, com os agentes impedindo que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava no chão.
O tenente-coronel reforça que uma pessoa só pode ser legalmente abordada por um agente quando há fundada suspeita de envolvimento em crime, baseada em elementos objetivos. Contudo, ele alerta que essas regras frequentemente não são seguidas na prática, especialmente nas regiões periféricas, que recebem tratamento diferenciado das áreas nobres da cidade.
"As normas da polícia não valem nada, absolutamente nada na vida real. [...] Nós caímos no padrão de atuação em territórios ditos conflagrados, onde há inimigos. Periferia, pretos ou pardos e pobres. Encaixou em um desses quesitos, ou nos três, é inimigo e merece sofrer toda e qualquer ação do Estado", declara o pesquisador, que compara o caso a episódios históricos de violência policial em São Paulo.
Falhas técnicas e operacionais na ação
Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, também critica a atuação dos agentes, afirmando que o ocorrido não pode ser caracterizado como uma abordagem policial legítima, mas sim como uma "desinteligência" ou briga entre policiais e civis. Ele aponta uma série de falhas na operação, começando pela forma como o patrulhamento foi conduzido.
Uma das irregularidades destacadas é o fato de a viatura estar com os sinalizadores desligados, mesmo tratando-se de uma polícia ostensiva. Segundo o ex-ouvidor, isso pode ter contribuído para o início do conflito, já que o casal não teria sido adequadamente alertado sobre a aproximação do veículo policial.
O especialista também questiona a condução da viatura, lembrando que o patrulhamento deve ser realizado em velocidade que permita observar cuidadosamente o entorno das ruas, justamente para evitar situações de risco. Além disso, ele considera que o uso de força letal não se justificava no caso, uma vez que o disparo de arma de fogo só deve ocorrer em situações de risco iminente à vida, circunstância que não se configurou no episódio envolvendo Thawanna.
Por fim, Cláudio Silva aponta grave falha no uso das câmeras corporais, já que a soldado Yasmin não portava o equipamento no momento da ação. "Não justifica. Além de uma falha dela de não estar com equipamento, tem uma falha do comando dela. O comando dela deveria ter percebido a falta do equipamento", explica o ex-ouvidor.
Posicionamento oficial e contexto estatístico
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que todas as circunstâncias do caso estão sendo investigadas com prioridade pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de Inquérito Policial Militar (IPM), com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas. A pasta ressaltou que as imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise da autoridade policial, integrando o conjunto probatório do caso.
O episódio ocorre em um contexto de aumento nas mortes cometidas por policiais militares em serviço no estado de São Paulo durante o ano de 2025, levantando novamente debates sobre protocolos de atuação, uso da força e accountability nas ações policiais.



