Policial aposentado é preso após quase uma década de violência doméstica em Manaus
O policial aposentado Divoney Perosa foi preso na última quinta-feira (9) após ameaçar decapitar sua ex-esposa, mas por trás dessa prisão há uma história de quase dez anos de agressões físicas, perseguição e violência psicológica. Mesmo com medidas protetivas determinadas pela Justiça, a vítima continuou sendo alvo constante do agressor, em um caso que expõe a gravidade da violência doméstica no Amazonas.
Uma década de terror e humilhações
Em entrevista exclusiva à Rede Amazônica, a ex-esposa do policial, que hoje tem 27 anos e preferiu não se identificar, revelou detalhes chocantes sobre os anos de sofrimento. "Ele rasgava as minhas roupas, quebrava o aparelho de celular. Eu ficava calada, só chorava. Eu ficava em silêncio por vergonha", confessou a mulher, que conheceu o agressor há dez anos e logo foram morar juntos.
A primeira agressão ocorreu quando ela não avisou que comeria um lanche na rua. "Quando eu cheguei em casa, ele me bateu. Nem cheguei em casa, na rua mesmo. Ele me pegou quando eu estava voltando, rasgou minha roupa e aí, por vergonha, eu entrei no carro sem roupa e aí ele começou a bater pela primeira vez. Inclusive nesse dia ele estava numa viatura de polícia", relatou emocionada.
A vítima descreveu a sensação pós-agressão: "Eu dormi. Quando eu acordei, parecia que eu tinha morrido. Foi uma sensação de morte. Eu não tinha forças pra levantar da cama". Desde então, a violência se tornou rotina. "A primeira vez e a partir daí, eu... posso dizer que eu acostumei com aquilo. Perdi as contas de quantas vezes me bateu".
Perseguição e ameaças crescentes
Em setembro do ano passado, ela finalmente decidiu sair de casa, mas Divoney passou a segui-la em todos os lugares. Mesmo com medidas protetivas determinadas pela Justiça, o policial não parou. Ele a abordava na rua, pedia para ela voltar para casa e, quando bloqueado nas redes sociais, começou a enviar mensagens através do Pix.
Em uma das transferências, o agressor exigia que a vítima desbloqueasse o aplicativo, ameaçando pedir para terceiros enviarem recados. Como não era atendido, as ameaças se intensificaram. No início do mês, ele obrigou a ex-mulher a entrar no carro, momento em que ela começou a gravar as ameaças de morte.
"Quando a gente terminar, eu vou te matar. Eu vou te matar, tô te falando. Pode gravar, manda lá pra Delegacia da Mulher pra aumentar minha condição restritiva. Eu vou te decapitar, vou jogar bola com a tua cabeça lá na frente", disse o policial aposentado durante a gravação.
Perfil controlador e perseguidor
A delegada Patrícia Leão, responsável pelo caso, explicou o comportamento do agressor: "Ele usava dessa dependência para manter essa menina com ele. E ele conseguiu durante esse longo período, mesmo ela tentando ali se desvencilhar dele por várias vezes, mas ele sempre atrás. Então ele ainda tem esse perfil também. Ele é perseguidor. Ele não deixava ela sair dessa relação".
A vítima reconhece hoje a anormalidade da situação: "Eu era dependente e hoje eu me sinto curada. Hoje eu vejo que aquilo não era normal e por muitos anos eu pensava que aquilo era normal. Que era normal eu ser agredida, ser ofendida, ser dependente".
Ela revelou ainda os mecanismos de controle: "No início eu achava que era um ato de carinho. Não queria que eu trabalhasse, nem estudasse. Dizia que ele ia me ajudar financeiramente, mas depois eu vi que aquilo fazia parte de plano. Eu nunca tive forças para sair, nem condições".
Histórico criminal e prisão
Divoney Perosa de Souza tem um extenso histórico criminal. Em abril de 2023, outra mulher o acusou de assédio e violência psicológica. Em janeiro de 2025, ele foi preso por extorsão e respondia ao processo em liberdade.
Na semana passada, o policial sequestrou a ex-esposa, mas foi perseguido pela irmã dela, que filmou toda a ação. Durante o trajeto, ocorreram mais agressões e ameaças. "Eu não acreditava nas ameaças dele. Eu nunca acreditei. Eu vi que era sério quando ele me pegou na rua e disse 'Eu tenho 60 anos, eu já vivi a minha vida, já realizei meu sonho, Você não tem nada a perder. Hoje tu vai morrer'", afirmou a vítima.
A mulher procurou a polícia no dia seguinte e a delegada Patrícia Leão pediu a prisão do agressor. Ele foi preso em Iranduba, quando se preparava para fugir da região.
Posicionamento da defesa
Em nota oficial, a defesa de Divoney Perosa de Souza informou que vai se manifestar apenas sobre os fatos que constam oficialmente no processo, em respeito ao devido processo legal. Segundo os advogados, não há conhecimento formal sobre outras acusações divulgadas fora dos autos, por isso não irão comentar esses pontos.
A defesa também afirma que o vídeo que circula é antigo e não tem relação direta com o caso que levou à prisão, além de contestar a suposta violação de medidas protetivas. Para a vítima, no entanto, a prisão representa a chance de começar uma vida nova, livre do ciclo de violência que durou quase uma década.



