Feminicídio em Minas repete padrão brutal de caso de São Paulo, alertam especialistas
O caso do homem suspeito de arrastar a ex-namorada por aproximadamente 400 metros com um carro em Morro do Pilar, Minas Gerais, repete um padrão de violência extrema que marcou a morte de Tainara Souza Santos, atropelada e arrastada em novembro, na cidade de São Paulo. Para advogadas ouvidas pelo UOL, episódios como esses revelam uma escalada brutal da violência contra mulheres no Brasil, com métodos cada vez mais cruéis e covardes.
Casos repetem método de atropelamento como agressão
Nos dois episódios, o atropelamento foi utilizado como instrumento de agressão direta e letal. Em Minas Gerais, conforme relato do delegado David Nascimento, o suspeito abordou a ex-companheira, que estava com o atual namorado dentro de um veículo. Para evitar qualquer conflito imediato, a jovem se aproximou da janela do carro do ex, momento em que ele arrancou bruscamente e a arrastou por vários metros, causando ferimentos graves.
Situação extremamente similar ocorreu com Tainara Souza Santos, atropelada por Douglas Alves da Silva, de 26 anos, após sair de um estabelecimento comercial na zona norte de São Paulo. Imagens de segurança mostram a jovem sendo arrastada pela via pública até a Marginal Tietê, em um percurso de cerca de um quilômetro. Em Minas, a vítima foi arrastada por aproximadamente 400 metros, evidenciando a intencionalidade do ato.
"É um método covarde que demonstra total incapacidade de lidar com a rejeição e o fim de um relacionamento", afirma a promotora Fabiana Dal’Mas, do Grupo de Atuação Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica do Ministério Público de São Paulo. "Não se trata de um acidente, mas de uma ação premeditada com alto potencial letal", complementa a especialista.
Fuga após os crimes e histórico de violência
Nos dois casos registrados, os suspeitos fugiram imediatamente após cometerem o atropelamento. Douglas Alves da Silva foi preso no domingo seguinte ao crime, enquanto o homem investigado em Minas Gerais é procurado desde 15 de fevereiro, quando câmeras de segurança registraram toda a agressão.
Inicialmente tratado como tentativa de feminicídio, o caso de Tainara foi reclassificado como feminicídio consumado após a morte da jovem, que chegou a ter as pernas amputadas e passou por diversas cirurgias sem sucesso. Em Minas, a investigação já aponta diretamente para tentativa de feminicídio. Segundo o delegado responsável, imagens indicam que o suspeito engatou marcha à ré durante o episódio, aumentando a brutalidade. "Não há dúvidas de que foi uma tentativa de feminicídio", declarou a autoridade policial.
Ambos os investigados já possuíam registros anteriores de comportamento violento. Douglas Alves da Silva tinha histórico de agressividade e antecedente por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito. O suspeito de Minas Gerais acumulava ao menos dois boletins de ocorrência por violência doméstica e um pedido de medida protetiva, inclusive da própria vítima do arrastamento.
Para a promotora Fabiana Dal’Mas, esses crimes não são atos isolados ou explosões momentâneas. "São expressão clara de uma lógica perversa de controle sobre o corpo feminino, que se intensifica com o tempo", afirma a especialista. "A violência doméstica segue um ciclo que, sem intervenção adequada, tende a escalar até desfechos trágicos".
Escalada da misoginia e subnotificação de casos
Especialistas apontam que a brutalidade crescente está diretamente ligada à disseminação de discursos misóginos na internet e em redes sociais. A presidente da Comissão das Mulheres Advogadas da OAB, Maíra Recchia, afirma que a violência contra mulheres ganha estímulo em ambientes virtuais pouco regulados.
"Existem grupos organizados em plataformas como Telegram e na deepweb que incentivam abertamente crimes contra mulheres", diz Recchia. "Esses espaços reforçam discursos de ódio e até oferecem suporte jurídico a agressores, criando uma sensação de impunidade". Segundo ela, homens que antes sentiam vergonha ou receio de cometer violência passam a encontrar validação nesses grupos.
A promotora Dal’Mas alerta ainda para a grave subnotificação de tentativas de feminicídio, muitas vezes registradas erroneamente como lesão corporal ou homicídio simples. Para ela, é fundamental capacitar autoridades policiais para identificar corretamente a natureza dos crimes. "A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio foram avanços importantes, mas ainda há subdimensionamento significativo na contabilização desses casos", afirma.
Pacto considerado insuficiente e necessidade de ações concretas
No início de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu representantes dos três Poderes para anunciar um pacto nacional contra o feminicídio. O evento, porém, foi marcado principalmente por discursos e pela criação de um comitê com representantes do Executivo, Legislativo e Judiciário, sem medidas concretas imediatas de combate à violência.
Para Maíra Recchia, o enfrentamento efetivo exige ações mais incisivas, especialmente no combate à misoginia digital. "Não adianta anunciar pactos sem investigar seriamente os grupos que fomentam o ódio contra mulheres na internet", afirma a advogada. "Também é necessário dar mais atenção às violências psicológica e patrimonial, que frequentemente antecedem agressões físicas graves e letais".
Os casos recentes de Minas Gerais e São Paulo reforçam o alerta constante de especialistas: o feminicídio não é um ato isolado ou imprevisível, mas sim o desfecho extremo de uma cadeia de violência estrutural que ainda encontra terreno fértil para se reproduzir na sociedade brasileira. A mãe de Tainara Souza Santos, emocionada, declarou recentemente: "Sinto o choro de todas as mulheres que passam por isso", ressaltando a dimensão coletiva da tragédia.



