
A dor que não passa e a sensação esmagadora de injustiça. É assim que Ana Paula, esposa de Wellington Silva, o motociclista que perdeu a vida de forma brutal num atropelamento na EPTG, no final de agosto, descreve seus dias. A angústia vai muito além da perda — ela é alimentada diariamente pela constatação de que o homem acusado de causar a morte do seu marido circula livremente, como se nada tivesse acontecido.
— Ele está impune. Totalmente impune. Vive a vida normal dele, enquanto a minha família desmorona — desabafa ela, com a voz embargada por uma mistura de raiva e tristeza que parece não ter fim.
O caso, que chocou quem acompanhou pelas redes sociais, aconteceu no começo da noite do último dia 24. Wellington, de 33 anos, pilotava sua moto quando foi atingido em cheio por um carro — um Honda Fit, dirigido, segundo a polícia, por João Victor Rodrigues de Oliveira. O que era para ser mais um trajeto rotineiro terminou em tragédia.
O Desespero de Quem Ficou
Ana Paula não esconde a revolta. Ela conta que o acusado, mesmo respondendo a um processo por homicídio culposo no trânsito (aquela morte sem intenção, mas resultante de uma negligência), não está preso. A lei, de fato, permite que ele aguarde o julgamento em liberdade, já que a acusação não é de homicídio doloso (com intenção). Mas try explaining that to a widow. Tente explicar isso para uma viúva.
— Meus filhos perguntam pelo pai. E eu, o que eu digo? Que o homem que matou ele está solto por aí, indo ao mercado, postando fotos nas redes sociais? É desumano.
O Longo (e Lento) Caminho da Justiça
E é aí que a faca torce ainda mais. O processo judicial, como tantos outros no país, parece andar a passos de tartaruga. A Defensoria Pública do DF confirmou que João Victor foi, sim, denunciado. Mas o andamento do caso? Lento. Demorado. Um verdadeiro teste à paciência e à sanidade de quem já perdeu tudo.
Não existe um prazo mágico para que isso chegue a uma conclusão. Pode levar meses. Pode levar anos. E enquanto a papelagem tramita em gabinetes climatizados, uma família inteira definha na espera.
O que Ana Paula e a família de Wellington querem, no fundo, é simples: celeridade. Que o caso não seja engavetado, mais um número numa estatística mórbida de acidentes de trânsito. Eles buscam, acima de tudo, um sentimento raro e cada vez mais escasso: o de que a justiça foi, de fato, feita.
Até lá, a impunidade — essa velha conhecida da sociedade brasileira — segue sendo o sal na ferida de quem só queria voltar para casa naquele dia.