Ouvidoria solicita investigação por omissão de socorro após morte de Thawanna em Cidade Tiradentes
A Ouvidoria das Polícias de São Paulo formalizou um pedido para que a Corregedoria da Polícia Militar investigue a possível omissão de socorro no caso da morte de Thawanna Salmázi, de 31 anos. A ajudante-geral foi baleada por uma policial militar na madrugada do dia 3 de abril, na Rua Edmundo Audran, em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista, e faleceu devido a uma hemorragia interna aguda.
Depoimento do companheiro revela impedimento violento
Luciano Gonçalves dos Santos, companheiro de Thawanna, prestou depoimento nesta segunda-feira (13) na Ouvidoria. Ele relatou que tentou socorrer a vítima imediatamente após o disparo, mas foi impedido com violência pelos policiais militares presentes no local. "Fui impedido inúmeras vezes. Não me deixaram socorrer minha esposa. Fui oprimido pelos policiais naquela noite. Foi um ato de crueldade", afirmou Luciano à TV Globo.
O ouvidor Mauro Caseri destacou que não existe nenhuma lei que proíba um parente de prestar socorro a uma pessoa ferida. Por isso, ele vai solicitar formalmente que a Corregedoria da PM apure tanto a omissão quanto a identificação de quem deveria ter prestado o atendimento emergencial.
Demora no resgate e contradições na atuação policial
Segundo a linha do tempo reconstruída a partir de imagens de câmera corporal e registros oficiais, Thawanna esperou aproximadamente 40 minutos pelo resgate, apesar de o soldado Weden da Silva Soares ter acionado o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) poucos segundos após o tiro. O Copom, por sua vez, só contatou a central do Corpo de Bombeiros cerca de cinco minutos após a solicitação inicial.
Dados alarmantes:
- A primeira ambulância foi designada às 3h06, mas foi substituída por outra seis minutos depois.
- A segunda ambulância saiu da base apenas às 3h17 e chegou ao local às 3h30.
- Thawanna foi transportada ao hospital às 3h40, mas não resistiu aos ferimentos.
Socorristas ouvidos pela reportagem afirmaram que a demora contribuiu diretamente para o agravamento do quadro, já que o ferimento não foi estancado nos primeiros minutos. A meta da Polícia Militar estabelece que atendimentos de emergência devem ocorrer em até 20 minutos, mas no caso específico, o tempo de resposta ultrapassou em pelo menos 10 minutos esse limite.
Bases próximas e questionamentos sobre a eficiência do socorro
Investigadores apuraram que havia bases do Corpo de Bombeiros a poucos minutos do local do ocorrido. A unidade mais próxima, situada na Avenida dos Metalúrgicos, em Cidade Tiradentes, está a cerca de 6 minutos de distância. Uma segunda base, na Rua Luís Mateus, em Guaianases, fica a aproximadamente 13 minutos. As estimativas foram calculadas considerando o mesmo horário da ocorrência, por volta das 3h da madrugada.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) emitiu uma nota informando que todas as circunstâncias do caso estão sendo investigadas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), com acompanhamento das corregedorias. A pasta ressaltou que os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais e que o Corpo de Bombeiros também apura o tempo de resposta no socorro.
Versões conflitantes e alegação de legítima defesa
A defesa da policial militar Yasmin Cursino Ferreira, autora do disparo, alegou que sua cliente agiu em legítima defesa após ser agredida. "Estando no exercício da função, ela foi agredida e efetuou um único disparo para cessar a escalada das agressões por parte da vítima", afirmou o advogado Alexandre Guerreiro.
Contudo, testemunhas que presenciaram a abordagem contestaram essa versão. O empreendedor Erick Levy relatou à TV Globo que a viatura avançou na direção do casal e descreveu uma escalada de agressões verbais e físicas iniciadas pela policial. "A policial deu um murro nela e chutou as partes íntimas dela. A Thawanna foi para trás, deu uma respirada, e deu um tapa na mão da policial. A policial foi para trás e deu um tiro", detalhou Levy.
O caso continua sob investigação, com a Ouvidoria pressionando por respostas sobre a omissão de socorro que pode ter custado a vida de Thawanna Salmázi.



