
Foi um daqueles dias que ficam marcados na alma, sabe? Não pela pompa, mas pelo peso silencioso de cada olhar. Na sede do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, em Belo Horizonte, o ar era denso, carregado de uma história que muita gente preferiria esquecer, mas que algumas famílias não podem – e nem querem – deixar morrer.
Quase 60 anos depois, a Justiça finalmente começou a escrever direito uma das páginas mais sombrias do Brasil. Até parece mentira, mas foi só agora, em 2025, que dezenas de famílias conseguiram segurar nas mãos um pedaço de papel que diz a verdade. A verdade crua e nua que sempre souberam.
Nada daquelas velhas mentiras oficiais de "causa natural" ou "suicídio" para encobrir assassinatos brutais. As novas certidões de óbito, emitidas graças a uma força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União (DPU), agora registram o que de fato aconteceu: mortes violentas decorrentes de perseguição política durante o regime militar.
O Passado Não Está Morto. Nem Enterrado.
Dá um nó na garganta. Imagina carregar por uma vida inteira um documento que, além de te lembrar da perda de alguém que você amava, ainda mente na sua cara? É como se a agônia nunca terminasse. A dona Thereza Cabral, uma senhora de coragem que perdeu o irmão, José Roberto de Souza Cabral, em 1974, resumiu tudo numa frase que doía: "É o reconhecimento de uma história que sempre foi verdadeira para a gente".
E ela tem toda a razão. Isso vai muito além de um mero trâmite burocrático. É sobre identidade, sobre fechar uma ferida que sangra há gerações. É sobre poder dizer aos netos e bisnetos: "Veja, é isso que aconteceu com seu bisavô. Ele foi um herói, não um número numa estatística falsa".
Como Tudo Aconteceu? O Mecanismo por Trás da Reparação
O processo não foi rápido – aliás, nada que envolve a máquina do Estado é. Tudo começou com um levantamento minucioso feito pela Comissão da Verdade em Minas Gerais, que identificou 78 casos de mortes que precisavam ser recertificadas. Aí entrou o MPF e a DPU, fazendo a ponte entre as famílias e o poder judiciário para conseguir as sentenças que autorizavam a retificação.
- Reconhecimento Oficial: A certidão nova não deixa margem para dúvidas. Ela atribui a morte diretamente à violência de Estado.
- Reparação Moral: É um gesto simbólico gigantesco, um pedido de desculpas oficial tardio, mas necessário.
- Acesso a Direitos: Com o documento retificado, muitas famílias podem, finalmente, ter acesso a reparações financeiras e outras formas de indenização que eram bloqueadas pela versão falsa da história.
E olha, não foi fácil não. Muitos cartórios, presos a um formalismo cego, resistiram. Imaginem só: questionar a palavra do Estado na época da ditadura? Mas a perseverança das famílias e dos promotores venceu.
Uma Cerimônia que Fala Mais que Palavras
O evento em BH não foi só uma entrega de documentos. Foi um ato de resistência. Um reencontro de gerações. Tinha neto segurando a certidão do avô que nunca conheceu. Tinha filha com lágrima presa no canto do olho, finalmente com uma resposta. Uma senhora, dona Thereza, mencionou que a mãe dela, que morreu aos 101 anos, sempre lutou por isso. "Ela não conseguiu ver, mas eu estou aqui vendo". Arrepia.
O procurador da República Edmundo Oliveira Dias não usou linguagem jurídica. Falou com o coração: disse que era uma correção de "injustiças históricas" e uma forma de "ressignificar a memória" dessas pessoas. A defensora pública federal Mariana Tamari completou: é sobre "reconhecer a verdade e garantir que ela não se repita".
E é isso. Enquanto alguns ainda tentam falar em "revogar a ditadura" – um absurdo sem tamanho –, atos concretos como esse mostram que o caminho é um só: olhar para o passado de frente, por mais doloroso que seja, e garantir que ele nunca, nunca mesmo, se repita.
As certidões são só papel e tinta. Mas o que elas carregam é imensurável: a verdade restaurada. E, como bem lembrou uma familiar, "a gente não pode deixar que a história seja apagada". Belo Horizonte, naquele dia, foi mais do que uma capital: foi palco de um pequeno grande capítulo de justiça.