Prefeito de Cabedelo é afastado em operação da Polícia Federal
Uma operação da Polícia Federal, determinada pela Justiça da Paraíba, na manhã desta terça-feira (14) em Cabedelo, na Grande João Pessoa, resultou no afastamento do prefeito interino Edvaldo Neto (Avante). O político havia vencido a eleição suplementar no último domingo (12), mas foi alvo de uma ação que investiga um complexo esquema de corrupção e ligação com o crime organizado.
Operação Cítrico: investigação conjunta
A Operação Cítrico é uma iniciativa conjunta da Polícia Federal, do Ministério Público da Paraíba (por meio do Gaeco) e da Controladoria-Geral da União (CGU). Foram cumpridos mais de 20 mandados de busca e apreensão, focando em fraudes em licitações, desvio de recursos públicos e a conexão de agentes políticos com uma facção criminosa.
O que a investigação apura?
A investigação aponta para a existência de um consórcio entre políticos da alta cúpula do município, empresários e integrantes da facção “Tropa do Amigão”, um braço do “Comando Vermelho”. Segundo a PF, o esquema pode ter movimentado até R$ 270 milhões em contratos fraudulentos, utilizando empresas de mão de obra para infiltrar membros da facção na prefeitura e desviar dinheiro público.
A decisão para determinar o afastamento e a investigação foi do desembargador Ricardo Vital de Almeida, que descreve que empresas terceirizadas, especialmente a Lemon Terceirização e Serviços Ltda, com sede em Olinda, em Pernambuco, eram o eixo central do esquema estruturado dentro da administração pública de Cabedelo.
Como aconteciam as fraudes?
A Justiça aponta que as fraudes ocorriam com a desclassificação deliberada de empresas concorrentes nas licitações, mesmo quando apresentavam propostas melhores, mediante decisões administrativas e pareceres jurídicos que davam aparência de legalidade ao processo licitatório.
Uma vez que os contratos eram fechados, essas empresas terceirizadas funcionariam como um mecanismo de contratação de pessoas indicadas pela facção criminosa. Essas indicações, segundo a investigação, partiam da liderança do grupo criminoso e eram operacionalizadas dentro da administração pública por intermediários e servidores.
Na prática, isso teria criado uma espécie de “folha de pagamento paralela”, na qual recursos públicos pagos às empresas terceirizadas eram desviados, total ou parcialmente, para financiar a organização criminosa e pagar propinas a agentes públicos. O dinheiro circulava por meio de salários inflados, pagamentos em espécie e uso de contas de terceiros, caracterizando indícios de lavagem de dinheiro.
Quem são os alvos da operação?
O principal alvo é o prefeito afastado, Edvaldo Neto. Além dele, a operação mirou outras 12 pessoas, incluindo familiares e pessoas ligadas à sua gestão. Entre eles estão:
- Cynthia Denize Silva Cordeiro, sogra do prefeito e advogada do chefe da facção Fatoka, apontada como elo jurídico entre o núcleo político e a facção.
- Josenilda Batista dos Santos, atual secretária de Administração, vista como braço operacional interno da facção.
- Diego Carvalho Martins, atual procurador-geral do município, que teria dado suporte jurídico ao esquema.
- Luciano Junior da Silva, dono de empresas, controlador do "hub de empresas" utilizadas pela facção.
Outros envolvidos incluem Aldecir Monteiro da Silva, sócio formal da Lemon; Rougger Guerra Junior, ex-procurador da Câmara; Rita Bernadeth Moura Medeiros, elo operacional; Claudio Fernandes de Lima Monteiro, policial militar reformado; Tanison da Silva Santos, intermediário da facção; e Genilton Martins de Brito, operador financeiro.
Sogra de prefeito era advogada de chefe da facção criminosa?
Sim, de acordo com o desembargador Ricardo Vital de Almeida, Cynthia Denize Silva Cordeiro, sogra do prefeito Edvaldo Neto, era advogada de Fatoka, chefe do Comando Vermelho. Ela teria articulado a aliança inicial entre a Prefeitura e a facção, desempenhando um papel importante no esquema criminoso.
Prefeito interino não vai assumir como prefeito eleito?
O afastamento foi uma medida cautelar determinada pela Justiça da Paraíba para preservar a investigação e impedir a continuidade das condutas investigadas. Edvaldo Neto já era prefeito interino desde 2025 e foi afastado do cargo dois dias após ser eleito para o mandato definitivo. A medida não tem relação direta com a eleição suplementar.
De acordo com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB), o afastamento não foi determinado por integrante da Justiça Eleitoral, e eventuais efeitos na diplomação serão apreciados pela autoridade competente em processo judicial específico.
Quem assume a prefeitura de Cabedelo?
Com o afastamento de Edvaldo Neto, quem assume o comando da prefeitura é o atual presidente da Câmara Municipal, José Pereira (Avante). José Pereira era vice-presidente da Câmara de Cabedelo e assumiu a presidência quando Edvaldo Neto precisou sair para assumir a Prefeitura de forma interina.
O novo prefeito interino, José Pereira, está no terceiro mandato de vereador, tendo sido eleito em 2012, 2020 e 2024. Com sua saída para assumir a Prefeitura, Wagner do Solanense (PV), 2º vice-presidente da Câmara Municipal, deve assumir a presidência do Legislativo de forma interina.



