CPI do Crime Organizado rejeita 'relatório bolsonarista' que virou piada no Senado
O que deveria marcar o encerramento de uma investigação séria sobre as estruturas do crime organizado no Brasil terminou em derrota política e constrangimento para o senador Alessandro Vieira, do MDB de Sergipe. Por 6 votos a 4, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado rejeitou, nesta terça-feira (14), o relatório final apresentado por Vieira, um documento que rapidamente ganhou o apelido de "relatório bolsonarista" nos bastidores de Brasília e se tornou alvo de piadas e críticas severas por sua flagrante seletividade e falta de base jurídica sólida.
Manobra de última hora garante rejeição
A rejeição do polêmico relatório foi viabilizada por uma manobra de última hora na composição do colegiado da CPI. Horas antes da votação crucial, três dos onze membros titulares foram trocados: os senadores Sergio Moro, do PL do Paraná, e Marcos do Val, do Avante do Espírito Santo, deram lugar a Beto Faro e Teresa Leitão, ambos do PT do Pará e Pernambuco, respectivamente. A senadora Soraya Thronicke, do PSB de Mato Grosso do Sul, também assumiu uma titularidade. Com essa nova configuração, a base governista e parlamentares independentes garantiram a derrubada do texto, que foi amplamente classificado como uma peça de propaganda política com objetivos eleitorais claros.
Seletividade e ataque ao Judiciário geram espanto
O relatório de Alessandro Vieira causou espanto generalizado ao poupar figuras notórias envolvidas com o crime organizado e o sistema financeiro brasileiro, como o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e políticos influentes como Ciro Nogueira, do PP, e Antônio Rueda, do União Brasil. Em contrapartida, o texto pedia o indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, além do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet.
Para juristas e parlamentares da base governista, a estratégia por trás do documento era clara: alimentar o discurso bolsonarista que busca, desde a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, remover integrantes da Suprema Corte por meio de processos de impeachment no Senado. A tentativa de criminalizar decisões judiciais e a concessão de habeas corpus foi vista como uma "aberração jurídica" sem precedentes na história das CPIs brasileiras.
Gilmar Mendes 'destroça' o relator em resposta contundente
A reação mais contundente veio do decano do STF, o ministro Gilmar Mendes, que não poupou ferocidade ao rebater o documento, classificando-o como uma "cortina de fumaça" destinada a proteger milicianos e interesses escusos. Em uma frase que paralisou os corredores do Congresso Nacional, o ministro disparou: "Causa espécie que o relator tenha se esquecido de indiciar seus colegas de milícia". Mendes lembrou que a CPI, criada após o massacre de 120 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, simplesmente ignorou a quebra de sigilo de facções e milicianos para focar em "espuma midiática" contra o STF.
Em nota publicada na rede social X, antigo Twitter, o ministro Gilmar Mendes aprofundou as críticas, acusando Alessandro Vieira, que é egresso da carreira policial, de "prevaricação intelectual". O ministro ressaltou que o pedido de indiciamento feito por uma CPI contra ministros por crimes de responsabilidade é juridicamente inexistente, já que a Lei 1.079 de 1950 prevê ritos específicos que não passam por relatórios de comissões parlamentares de inquérito.
Fim melancólico para uma CPI marcada por polêmicas
O encerramento dos trabalhos da CPI do Crime Organizado foi marcado pelo isolamento político de Alessandro Vieira. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá, ignorou os pedidos de prorrogação da comissão, selando assim o destino do colegiado. Sem a aprovação do relatório final, as "teses bolsonaristas" defendidas por Vieira perdem força institucional, e a comissão chega ao fim sob a pecha de ter tentado usar o aparato legislativo para fins panfletários e eleitorais, em vez de enfrentar de forma séria e comprometida o grave problema do crime organizado no país.
A rejeição do documento representa um revés significativo para aqueles que buscavam instrumentalizar a CPI para ataques ao Judiciário, deixando claro que o Congresso Nacional, em sua maioria, não compactua com manobras que desvirtuam o propósito das investigações parlamentares. O episódio serve como um alerta sobre os riscos de politização excessiva de comissões que deveriam focar no combate a problemas estruturais da sociedade brasileira.



