As redes sociais se tornaram uma ferramenta crucial para a Polícia Federal (PF) incriminar um dos chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC) em Roraima. Jardel Neto Pereira da Cruz, de 28 anos, conhecido pelos apelidos "Dedel" e "Vrau Nelas", teve um terço de suas publicações no Instagram e no Facebook usadas como provas no inquérito que o investigava. O material digital foi decisivo para sua prisão em flagrante em 2021.
Ostentação digital e símbolos do crime
Jardel Neto utilizava suas contas online para exibir explicitamente sua ligação com a facção criminosa. Entre as postagens analisadas pela PF, uma chamava a atenção: sobre uma mesa, apareciam duas armas de fogo ao lado de uma grande quantidade de dinheiro em espécie. A imagem era acompanhada de mensagens e símbolos diretamente associados ao PCC.
Os investigadores identificaram gestos como o "Tudo 3", feito com três dedos, e figuras de palhaços. De acordo com a PF, esses desenhos representam "matadores de policiais" dentro da hierarquia do grupo. O próprio Jardel tem tatuado o símbolo do "yin e yang", também adotado pela organização.
As legendas das fotos e vídeos não deixavam dúvidas sobre sua filiação. Em uma publicação, ele escreveu: "Penso Como Um Assassino Vivo Como Um Psicopata Executo As Minha Ações Como Um Bom Calculista Que Sou, E Depois Apenas Relaxo E Vejo Sangue Escorrendo Entre Os Dedos Forte Leal Abraço". A expressão "Forte Leal Abraço", segundo a PF, é um termo de tratamento comum entre integrantes do PCC.
Liderança regional e atividades criminosas
Natural de Santa Inês, no Maranhão, Jardel chegou a Roraima no início de 2021, vindo de São Paulo. Sua missão, de acordo com as investigações, era fortalecer a atuação do PCC no estado. Ele assumiu o cargo interno de "Geral do Estado", uma posição de liderança regional responsável por coordenar as atividades da facção e participar de decisões cruciais.
Sua atuação ia desde a venda de armas e drogas até a participação no chamado "tribunal do crime". A PF também apurou que ele recrutava adolescentes para o grupo, aproveitando-se da legislação mais branda para menores de idade. Além disso, ensinou técnicas de tortura para jovens, fato registrado em um vídeo onde ele mostra como bater nas mãos com um pedaço de madeira. A postagem foi compartilhada com a legenda "Aqui o chicote estala".
As investigações resultaram na condenação de Jardel a oito anos de prisão. O Ministério Público de Roraima (MPRR) reforçou que o acusado "se autodeclarou como companheiro da organização criminosa – PCC, ratificando o apoio às lideranças regionais". Atualmente, ele está em liberdade.
Conexão com o Estado: o caso da delegada
O caso ganhou contornos ainda mais complexos com a prisão da delegada Layla Lima Ayub, namorada de Jardel Neto. Ela foi detida durante uma operação do Ministério Público de São Paulo que investiga a infiltração do crime organizado em estruturas estatais.
Layla havia sido empossada como delegada em dezembro de 2025. No entanto, as investigações apontam que ela manteve vínculos pessoais e profissionais com integrantes do PCC e teria exercido irregularmente a advocacia para o grupo mesmo após assumir o cargo público. Na cerimônia de posse, realizada no Palácio dos Bandeirantes, Jardel apareceu ao lado dela.
O casal é investigado pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro. A Justiça decretou a prisão temporária de ambos. As apurações também envolvem a compra de uma padaria na Zona Leste de São Paulo com recursos de origem ilícita, supostamente em nome de um "laranja" para ocultar os verdadeiros donos.
O caso expõe como a ostentação nas redes sociais pode se voltar contra criminosos e revela os alarmantes laços entre facções e agentes do Estado, desafiando a segurança pública e a integridade das instituições.