Fraude em home care: empresária presa por esquema milionário com laudos falsos
Fraude em home care: empresária presa por esquema milionário

Empresária é presa por liderar esquema milionário de fraude em serviços de home care

Claudia Fonseca, acusada de comandar uma organização criminosa especializada em fraudar serviços de home care, foi presa nesta segunda-feira (13) em Santo Ângelo, no Noroeste do Rio Grande do Sul. A prisão foi realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público estadual, após constatação de que a empresária continuava praticando crimes mesmo após se tornar ré no processo.

Esquema mantido com novas empresas em nome de terceiros

Segundo o promotor de Justiça Diego Pessi, a empresária manteve o esquema criminoso ativo através da criação de novas empresas em nome de terceiros, com o objetivo de continuar captando e desviando valores destinados a tratamentos de saúde domiciliar custeados pelo poder público. A prisão foi decretada por haver "reiteração delitiva e risco à ordem pública", já que medidas cautelares anteriores não foram suficientes para impedir a continuidade das fraudes.

Claudia Fonseca é proprietária da Renovar Home Care, uma das principais empresas investigadas no esquema revelado em 2025 pelo Grupo de Investigação da RBS e pelo Fantástico. Na época, ela foi gravada por uma câmera escondida admitindo que simulava orçamentos para garantir que sua empresa fosse contratada em processos judiciais.

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Métodos sofisticados de fraude

O grupo criminoso utilizava métodos sofisticados para desviar recursos públicos:

  • Laudos médicos falsificados com trechos idênticos copiados entre diferentes pacientes
  • Concorrências forjadas para garantir contratos com a Renovar Home Care
  • Pagamentos que continuavam mesmo após a morte dos pacientes
  • Falsificação de rubricas e relatórios em nome de profissionais que nunca atenderam pacientes

A investigação apontou que, em Santo Ângelo, a empresa Renovar Home Care venceu ao menos 16 disputas judiciais através deste esquema fraudulento. Em todos os processos, eram sempre as mesmas empresas que forneciam os orçamentos, permitindo que a Renovar apresentasse sempre o menor valor.

Denúncia detalhada de ex-funcionária

A denúncia inicial partiu de uma ex-funcionária administrativa da Support Sul, que trabalhou na empresa por um ano. Segundo seu relato, funcionários eram pressionados a falsificar documentos em nome de médicos e enfermeiros que nunca atenderam os pacientes. "Exemplo de um terapeuta ocupacional, que é bem difícil de encontrar, o paciente não recebia esse atendimento, mas a empresa recebia o valor porque para o juiz era prestado esse laudo", explicou a ex-funcionária.

Ela entregou à reportagem um pen drive com 40 gigabytes de documentos comprometedores, incluindo reproduções de 50 carimbos e registros de atendimento de 15 pacientes que, na prática, não receberam o serviço contratado. A funcionária afirmou ter assinado laudos em nome de pelo menos dez profissionais de saúde sob ameaça de demissão.

Crescimento alarmante dos valores desviados

Segundo a Procuradoria-Geral do Estado, em 2024 foram registradas 227 decisões judiciais favoráveis aos pacientes envolvidos no esquema. O procurador-geral do Estado, Eduardo Cunha da Costa, alertou sobre o crescimento exponencial dos valores bloqueados: "Identificamos o crescimento no número de bloqueios judiciais nas contas do estado para pagamento — que saiu de 19 para 39 milhões, de 2023 pra 2024, e isso acendeu um alerta".

Roteiro padronizado para fraudar laudos médicos

Durante investigação com câmeras escondidas, Claudia Fonseca revelou a existência de um roteiro padronizado para embasar os laudos médicos nos quais a justiça se baseia para conceder liminares. O modelo sugere explicar que o "serviço não pode ser prestado por familiar ou cuidador" e que é "contraindicada a internação hospitalar".

Luiz Itamar Maciel, apresentado como sócio da empresa, foi além em suas declarações gravadas sem seu conhecimento. Ele admitiu existir uma triangulação com médicos e advogados para garantir a fraude: "E a gente trabalha com parceria com eles, junto com a equipe médica e a parte da advocacia, a gente montou uma forma de um laudo, pra que não viesse negado", confessou Maciel.

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O prefeito de Santo Ângelo comentou sobre a estranha padronização dos laudos: "Tem muitos laudos médicos que são praticamente copiar e colar. Nós achamos estranho, muito estranho, porque é ruim você contestar o médico, né? Mas, agora, quando vem alguns indícios desses, aí sim, nós podemos montar um dossiê".

O g1 entrou em contato com a defesa de Cláudia Fonseca, representada pelo advogado Itaguaci Meirelles Correa, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. A defesa da Support Sul afirmou, em nota, que "desconhece as acusações" e que "não tem como prestar esclarecimentos neste momento".