Turista gaúcha é solta após injúria racial em Salvador, mas recebe medidas cautelares
Turista gaúcha solta após injúria racial em Salvador com medidas

A turista do Rio Grande do Sul, Gisele Madrid Spencer Cesar, de 50 anos, foi solta nesta sexta-feira (23) após passar por audiência de custódia em Salvador. Ela estava presa desde quarta-feira (21) sob suspeita de cometer injúria racial contra uma vendedora ambulante negra no centro histórico da cidade.

Liberdade provisória com condições

A Justiça da Bahia concedeu liberdade provisória à turista gaúcha, atendendo a requerimento do Ministério Público estadual. No entanto, a soltura está condicionada ao cumprimento de medidas cautelares específicas determinadas pelo juiz.

Medidas impostas pela Justiça

As condições estabelecidas para a liberdade provisória de Gisele Madrid Spencer Cesar incluem:

  • Comparecimento obrigatório a todos os atos processuais quando intimada, mantendo endereço atualizado nos autos
  • Apresentação bimestral em Juízo durante um ano, começando nesta sexta-feira, para informar e justificar suas atividades
  • Proibição de se ausentar da Comarca de Porto Alegre por mais de dez dias sem autorização judicial
  • Vedação expressa de acesso ou frequência à Praça das Artes, localizada no Pelourinho em Salvador
  • Impedimento de qualquer contato com a vítima e testemunhas do caso

Contraste entre redes sociais e realidade

Dias antes do incidente, a turista publicou diversas fotos em suas redes sociais mostrando participação em eventos culturais baianos. Ela se apresenta como criadora de conteúdo para viajantes e estava em Salvador há aproximadamente sete dias quando ocorreu o crime.

Participação em eventos culturais

Durante sua estadia na capital baiana, Gisele participou da tradicional Lavagem do Bonfim, festa popular que mescla elementos do catolicismo com religiões de matriz africana. Em suas publicações, aparecia fotografada com um grupo de baianas – mulheres negras que representam importante tradição cultural do estado – acompanhada da legenda "O que que a baiana tem".

A turista também compartilhou imagem com integrantes do afoxé Filhos de Gandhy, grupo criado em 1949 no Centro Histórico de Salvador que se tornou símbolo de resistência negra e valorização da cultura afro-brasileira. Além disso, registrou presença no show da Timbalada, banda que une ancestralidade e identidade afro-baiana com inovação musical.

Detalhes do crime racial

O incidente ocorreu na Praça das Artes, no Pelourinho, durante evento gratuito que acontecia no local. Segundo relato da vítima, identificada como Hanna, ela trabalhava no bar do evento quando foi abordada pela turista gaúcha.

Relato da vítima

"Eu fiz uma venda e retirei o balde de um cliente. No momento que eu passei, ela falou: 'Vai mais um lixo'. Eu questionei e ela reafirmou que eu era um lixo e deu uma 'escarrada' em mim", detalhou a comerciante em entrevista à TV Bahia.

Hanna acrescentou que a suspeita correu após o ato, mas foi localizada porque "teve problemas com outras pessoas e o segurança estava tentando tirar ela do evento". A vítima relatou ainda que durante a agressão, a turista olhava diretamente em seus olhos e repetia: "Eu sou branca".

Conduta discriminatória continua na delegacia

A prisão foi realizada pela Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin). Após o registro da ocorrência, a turista foi conduzida à unidade policial, onde, segundo informações da polícia, manteve comportamento discriminatório.

Na delegacia, Gisele Madrid Spencer Cesar solicitou atendimento exclusivo por um delegado de pele branca, demonstrando continuidade na conduta que motivou sua prisão. A equipe da Decrin realizou oitivas e conduziu a investigação, mantendo a suspeita custodiada até a audiência de custódia desta sexta-feira.

Processo em andamento

Apesar da liberdade provisória concedida, o processo judicial continua em tramitação. As medidas cautelares impostas pela Justiça baiana visam garantir o acompanhamento do caso e prevenir novos incidentes enquanto a investigação e o processo penal seguem seu curso normal.

A defesa da turista gaúcha ainda não se manifestou publicamente sobre o caso. O crime de injúria racial, recentemente equiparado ao crime de racismo por alteração legislativa, pode resultar em pena de reclusão de um a três anos e multa, conforme a gravidade dos fatos apurados.