Brasileiros são atraídos por falsos empregos no Sudeste Asiático e caem em rede de fraudes
Brasileiros atraídos por falsos empregos no Sudeste Asiático

Brasileiros são atraídos por falsos empregos no Sudeste Asiático e caem em rede de fraudes

O Sudeste Asiático, região conhecida por sua exuberante natureza, esconde um segredo sombrio que tem elevado a tensão entre países como Camboja e Tailândia. No lado cambojano da fronteira, próximo às famosas ruínas da civilização Khmer, o Exército tailandês descobriu um complexo de cassinos que funcionava como uma central de golpes online em larga escala, lesando vítimas em todo o mundo.

Operação revela cenário de delegacia falsa da Polícia Federal

Em 12 de março, durante a operação, os agentes encontraram entre os escombros uma sala que simulava nos mínimos detalhes uma sucursal da Polícia Federal brasileira. O cenário, repleto de símbolos oficiais, era usado para enganar brasileiros em ligações de vídeo, induzindo-os a fazer depósitos em contas supostamente oficiais em troca de documentos como passaporte. Esquemas similares foram customizados para tapear também australianos, indianos e canadenses.

Por trás dessa vasta rede de fraudes digitais estão pessoas de diversas nacionalidades, incluindo tailandeses e brasileiros, recrutadas à força por máfias lideradas principalmente por chineses. Os estrangeiros que operam o esquema são, em sua maioria, jovens com ensino superior e aptidão para tecnologia, atraídos pela falsa promessa de empregos em datacenters com salário em dólar e hospedagem incluída.

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Regime análogo à escravidão e violações de direitos humanos

O que aguarda esses brasileiros do outro lado do mundo, porém, é um regime análogo à escravidão. Os criminosos confiscam passaportes, limitam o uso de celulares e as saídas, e castigam com violência física e psicológica aqueles com desempenho insatisfatório. "Eles passam a viver em cárcere privado", resume Estela Scandola, especialista em direitos humanos.

O escopo da teia que enreda cada vez mais brasileiros levou o Itamaraty a emitir um alerta em fevereiro, destacando o perigoso fenômeno do tráfico de pessoas para o Sudeste Asiático. "Não é possível determinar com precisão o total de vítimas, uma vez que, por sua natureza, o crime é frequentemente subnotificado", informou o Itamaraty em nota.

Casos chocantes de vítimas brasileiras

Segundo dados do Ministério da Justiça, 60% das vítimas se distribuem entre Camboja, Laos e Filipinas. "Eles buscam diversas nacionalidades justamente para aumentar o leque de idiomas em que o golpe pode ser praticado", explica Marina Bernardes, coordenadora-geral da área de enfrentamento ao tráfico de pessoas no ministério.

Em junho passado, a Justiça Federal de Pernambuco determinou a prisão de dois chineses suspeitos de integrarem uma dessas organizações. Investigações da Polícia Federal revelaram que uma brasileira havia sido levada ao complexo KK Park, na fronteira entre Tailândia, Mianmar e Laos — uma usina de golpes desarticulada há cinco meses. Estima-se que mais de 100.000 pessoas viviam ali em regime de escravidão, segundo a ONU.

Relatos de tortura e humilhação

Desse cativeiro, o paulistano Luckas Viana, 32 anos, foi libertado no início de 2025. Ele morava na Tailândia quando aceitou uma vaga tentadora em uma cidade remota, mas acabou sequestrado e levado a Mianmar. Passou quatro meses isolado, sem documentos, obrigado a se passar por mulher para ludibriar europeus. "Trabalhava no mínimo quinze horas diárias. Cheguei a achar que era melhor morrer", relatou.

O carioca Patrick Lopes, 28 anos, foi levado a um desses locais em 2022, acreditando que trabalharia com telemarketing. Ao desembarcar na Tailândia, foi recebido por homens armados e conduzido ao KK Park, onde permaneceu detido por três meses. Por se recusar a participar dos golpes, foi submetido a humilhações. Resgatado após negociação do governo brasileiro, voltou ao Brasil abalado. "Enfrentei depressão e alcoolismo. O terror que eu vivi parecia ficção", desabafa.

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Aumento global do tráfico de pessoas

Medo de represálias, vergonha e discriminação fazem com que apenas uma pequena parte dos casos venha à tona. Mesmo assim, a ONU divulgou dados mostrando que o número de pessoas em situação análoga à escravidão cresceu 47% globalmente nos últimos três anos. "Verificar a autenticidade de empresas e recrutadores e procurar canais oficiais de contratação pode reduzir vulnerabilidades", reforça a agência da ONU para migrações.

Com a expansão dessas redes criminosas, toda a atenção é pouca para proteger brasileiros que buscam oportunidades no exterior.