Operação 'Casa de Farinha' desarticula fraude bilionária com suplementos no Centro-Oeste de MG
Operação 'Casa de Farinha' desarticula fraude bilionária em MG

Operação 'Casa de Farinha' desmantela esquema bilionário de fraude fiscal no Centro-Oeste mineiro

Uma operação de grande porte realizada nesta quarta-feira (25) nas cidades de Arcos e Lagoa da Prata, no Centro-Oeste de Minas Gerais, desarticulou um sofisticado esquema de fraude tributária que movimentou centenas de milhões de reais. Batizada de 'Casa de Farinha', a ação revelou uma trama complexa onde empresas simulavam a venda de livros eletrônicos para ocultar a comercialização de suplementos alimentares produzidos sem autorização sanitária.

Mecanismo da fraude: e-books fictícios como fachada

De acordo com investigações do Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (CIRA-MG), vinculado ao Ministério Público de Minas Gerais, o esquema funcionava através de uma manobra contábil engenhosa. As empresas envolvidas declaravam a maior parte de suas vendas como livros digitais - produtos que possuem tributação diferenciada e geralmente mais baixa - enquanto na realidade comercializavam suplementos alimentares irregulares.

Carlos Renato Machado Confar, superintendente de Fiscalização da Secretaria de Estado de Fazenda, explicou detalhadamente o mecanismo: "Eles adquiriam esses suplementos na filial da fábrica de Arcos por preços irrisórios. Ao emitir a nota fiscal, registravam apenas uma pequena parcela como valor do suplemento propriamente dito, atribuindo a maior parte do valor aos supostos livros digitais, tentando assim induzir o fisco em erro".

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Falhas na documentação e evolução do esquema

O superintendente destacou ainda que, para que uma obra seja considerada livro - mesmo no formato digital - é necessário registro na Câmara Brasileira do Livro e um ISBN válido. Os supostos e-books do esquema não possuíam essa documentação, invalidando qualquer tentativa de usufruir da imunidade tributária prevista para livros na Constituição Federal.

Com o passar do tempo, o esquema tornou-se cada vez mais estruturado:

  • As vendas digitais fictícias passaram a servir como fachada para operações de maior escala
  • Empresas de fachada eram criadas sistematicamente para dar aparência de legalidade
  • A comercialização ocorria principalmente através da internet, com intenso marketing digital
  • Os envolvidos orientavam outras pessoas sobre técnicas de revenda dos produtos

Enquanto isso, os suplementos físicos eram enviados diretamente aos consumidores, sem qualquer correspondência com o que constava nas notas fiscais emitidas.

Riscos à saúde pública e números impressionantes

Além da sonegação fiscal, o esquema representava sérios riscos à saúde pública. Os suplementos alimentares eram produzidos sem registro ou controle sanitário adequado, em condições que não atendiam às normas da vigilância sanitária. Durante as buscas, equipes encontraram evidências de fabricação irregular em galpões de produção.

Os números da fraude são impressionantes:

  1. Movimentação financeira estimada em mais de R$ 400 milhões
  2. Mais de 1 milhão de consumidores potencialmente lesados
  3. Bloqueio judicial de aproximadamente R$ 1,3 bilhão em bens e valores dos envolvidos

Prisões e continuidade das investigações

A operação resultou na prisão de dois suspeitos nas cidades de Arcos e Lagoa da Prata. Eles podem responder por crimes como associação criminosa, sonegação fiscal e infrações contra a saúde pública. As investigações continuam para identificar outros envolvidos e mapear completamente o alcance da fraude.

Um dos investigados, cujo nome não foi divulgado, ostentava uma vida de luxo nas redes sociais e vendia cursos que ensinavam outras pessoas a reproduzir o esquema de produção e comercialização irregular de suplementos.

Força-tarefa multidisciplinar

A operação 'Casa de Farinha' contou com uma força-tarefa impressionante:

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  • 7 promotores de Justiça
  • 5 delegados da Polícia Civil
  • 68 auditores fiscais
  • 73 policiais civis
  • 26 policiais militares
  • 8 bombeiros militares
  • 2 agentes da Anvisa
  • 2 agentes da Vigilância Sanitária

Origem do nome e suspeitas de ramificações

O nome 'Casa de Farinha' faz referência a uma fábrica retratada na novela Três Graças, exibida pela Rede Globo, associada a situações de produção irregular e funcionamento clandestino similares às investigadas.

As autoridades suspeitam que o esquema tenha ramificações em outros estados e que práticas semelhantes possam ocorrer em diferentes setores da economia brasileira. A investigação segue ativa para desvendar completamente a extensão dessa fraude bilionária que combinava evasão fiscal com riscos à saúde pública.