Crise existencial ameaça a onça-pintada no Brasil
A onça-pintada, ícone da rica biodiversidade brasileira, enfrenta uma crise existencial de proporções alarmantes em todo o território nacional. Historicamente presente em todos os principais biomas, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, o maior felino das Américas viu sua distribuição drasticamente reduzida. Atualmente, as populações mais significativas se concentram na Amazônia e no Pantanal, enquanto a espécie está sob grave ameaça de extinção na Mata Atlântica, no Cerrado e na Caatinga, tendo sido completamente eliminada dos Pampas.
Pressão do desmatamento e do agronegócio
A diminuição acelerada da presença da onça-pintada está diretamente ligada ao desmatamento desenfreado, impulsionado por obras de infraestrutura e, principalmente, pela expansão do agronegócio. A Amazônia, com sua vasta extensão florestal contínua, ainda oferece áreas suficientes para manter populações viáveis, funcionando como um refúgio crucial. Já o Pantanal, embora menor em tamanho, abriga uma das maiores densidades globais do felino, graças à abundância de recursos hídricos e presas naturais.
No entanto, a pressão crescente sobre esses dois biomas, através do avanço do desmatamento, queimadas e da fronteira agrícola, coloca em risco não apenas as populações locais, mas o futuro da espécie em escala nacional. A onça-pintada é um animal solitário e territorialista, exigindo vastas áreas para sobreviver, com territórios que podem variar de 50 a mais de 1.000 quilômetros quadrados por indivíduo, dependendo da disponibilidade de presas e da qualidade do habitat.
Acidentes e ameaças imediatas
"A retaliação das áreas verdes faz com que ela se exponha", afirma Felipi Feliciani, líder da estratégia de biodiversidade terrestre da WWF-Brasil. Quando isso ocorre, o felino frequentemente cai em armadilhas perigosas, como demonstrado recentemente em um incidente no Cerrado, onde uma onça ficou presa em um canal de usina hidrelétrica no município de Juscimeira, Mato Grosso. Sem paredes para escalar, o animal corria risco de afogamento, cansaço, hipotermia e estresse, exigindo um resgate rápido para sobreviver.
Nem todos os casos têm um desfecho feliz. "Quando uma rodovia corta uma área preservada, há muitos atropelamentos", alerta Feliciani. Além disso, o aumento de plantações e pastagens representa uma ameaça imensa, pois, sem espaço suficiente para transitar, as onças acabam invadindo essas áreas e são frequentemente abatidas por fazendeiros em retaliação.
Estratégias para a conservação
"A sobrevivência das onças-pintadas depende da preservação do território atual e da recuperação de áreas para criar corredores de conexão entre as regiões de biodiversidade natural", destaca o especialista. A implementação de passagens de fauna em estradas é fundamental e já faz parte das contrapartidas exigidas em projetos de duplicação, mas nem sempre é cumprida devido a interesses econômicos que tendem a minimizar o problema.
Dar visibilidade à onça-pintada como um grande ativo da biodiversidade é crucial para pressionar por ações efetivas. A preservação ambiental não só beneficia essa espécie emblemática, mas também contribui para a saúde geral dos ecossistemas brasileiros, reforçando a necessidade urgente de políticas públicas e iniciativas privadas que priorizem a sustentabilidade.



