Projetos de saneamento reabilitam cartões-postais brasileiros e impulsionam economia
Poucas políticas públicas rendem resultados tão palpáveis quanto aquelas voltadas para o saneamento básico. Cada real investido retorna multiplicado por três na forma de redução de custos em saúde, alta da produtividade, valorização de imóveis e escalada do turismo, conforme recente estudo da ONG Trata Brasil.
Em um país calejado pelas más estatísticas no setor, a boa nova é que, aos poucos, o assunto vem saltando da frieza das planilhas para se converter em exitosos casos sobre os quais vale lançar luz.
Transformação de paisagens icônicas
Alvo de justificada incredulidade, a despoluição da Baía de Guanabara, cartão-postal carioca por décadas insalubre, se tornou o mais contundente exemplo de que, com a disciplinada expansão de coleta e tratamento do esgoto, é possível transformar águas imundas em balneáveis.
Iniciativa bilionária prevista para durar até 2030 já fez mudar a cara do verão com a reabilitação de areias como as do Flamengo e da Glória. Também circular pela Lagoa Rodrigo de Freitas, outra bela paisagem da cidade, deixou de ser prova de fogo às narinas, já observando-se por lá peixes em profusão.
Marco legal como catalisador
O impulso à mudança nesses e em outros pontos do território brasileiro tem raízes no marco do saneamento básico, aprovado em 2020, que estabeleceu metas para melhorias e permitiu o afluxo de capital privado.
Desde a aprovação da medida, a quantidade de concessões pulou de 219 para 1.793, fazendo com que o investimento chegue à casa dos 180 bilhões de reais. "O capital privado tem uma agilidade bem maior por não precisar percorrer todo o caminho burocrático", ressalta Luana Pretto, presidente da Trata Brasil.
Exemplos concretos pelo país
A atual temporada de calor já oferece um leque mais variado de praias:
- No disputado litoral norte da Bahia, onde agora dá para mergulhar nas belas Ipitanga e Guarajuba
- Em Balneário Camboriú, cuja faixa litorânea de maior procura, conhecida como Central, ganhou recentemente bandeira verde dos órgãos ambientais
- Na região metropolitana de Maceió, Barra de São Miguel acaba de se tornar o primeiro município a universalizar o saneamento
Nas próximas três décadas, a previsão é de aporte superior a 2,6 bilhões de reais apenas em Alagoas, cifra que se estima necessária para frear o despejo de dejetos in natura no mar azul-turquesa.
Desafios na Região Norte
Na Região Norte, onde o crescimento urbano desordenado tornou-se ameaça ambiental à Floresta Amazônica, uma injeção de recursos começa a dar outra perspectiva aos inúmeros bairros erguidos sobre palafitas.
Foram instalados 200 quilômetros de tubos para coletar material orgânico só em Manaus, sendo boa parte posicionada de maneira suspensa para atender justamente aos imóveis equilibrados sobre pilotis nos rios.
"Isso mudou inclusive a consciência dos moradores em relação aos cuidados com o igarapé. Antes, os dejetos eram jogados embaixo das nossas casas", conta Elaine Nunes, 49 anos, funcionária de um condomínio.
Metas ambiciosas e obstáculos
Por determinação do marco legal, 99% dos brasileiros deverão ter água tratada em casa e 90%, esgoto sanitário — tudo até 2033. Mas é preciso acelerar o passo: à velocidade de hoje, o atraso será de umas três décadas, ao menos.
Um dos obstáculos tem sido convencer prefeitos a apresentarem planos de expansão de um serviço que, embora essencial, encarece o custo de vida. Os avanços esbarram na histórica resistência de governantes em colocar dinheiro em obras subterrâneas, sem a mesma visibilidade de estradas e viadutos.
Angra dos Reis: exemplo de superação
Localizada na exuberante Costa Verde fluminense, Angra dos Reis está prestes a se mexer nesse setor que tanto dissabor já lhe trouxe: por cerca de vinte anos, o município mergulhou em dívidas com o governo federal para pôr de pé cinco estações de tratamento, que se tornaram esqueletos inoperantes.
Com recursos próprios, a prefeitura melhorou a infraestrutura e conseguiu recuperar as praias de Bonfim e Monsuaba — até a emblemática Praia do Anil, no centro, chegou a se tornar própria para banho por alguns dias em 2025.
"Não temos condição de absorver tantos gastos, então vamos fazer a concessão já", anuncia Felipe Larrosa, presidente do Serviço de Água e Esgoto local. Moradores e turistas agradecem, em aplaudido cuidado com o ambiente.



