À distância, um manto verde-esmeralda cobre a superfície do Lago Maracaibo, no oeste da Venezuela. De perto, a realidade é brutal: águas espessas, impregnadas de óleo cru, lixo e algas tóxicas exalam um odor ácido que domina as margens. Este cenário de colapso é o retrato de um dos mais graves desastres ambientais da América Latina, onde o coração energético do país se transformou em um reservatório de resíduos.
Um ecossistema transformado em depósito tóxico
Com aproximadamente 13 mil quilômetros quadrados, o Lago Maracaibo é o maior corpo d'água da América do Sul e um dos mais antigos do planeta. Hoje, ambientalistas, pesquisadores e moradores concordam: o lago deixou de funcionar como um ecossistema. Mais de uma centena de rios e canais despejam nele esgoto doméstico, fertilizantes agrícolas e dejetos industriais dos estados de Zulia, Mérida e Trujillo, além de parte da poluição que vem da Colômbia.
O excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo, alimenta a proliferação descontrolada de cianobactérias tóxicas, conhecidas como verdin. Beltrán Briceño, professor da Universidade de Zulia, explica que o lago entrou em um processo de eutrofização extrema em escala inédita. As algas bloqueiam a luz solar, consomem oxigênio e provocam a morte em massa da vida aquática, liberando microcistinas, substâncias que afetam o fígado e contaminam os peixes.
O petróleo: origem e agravante da tragédia
Embora a poluição difusa seja relevante, especialistas apontam o petróleo como o fator estrutural do desastre. O lago abriga dezenas de milhares de quilômetros de dutos submersos, muitos corroídos e sem manutenção há décadas. Plataformas enferrujadas e oleodutos rachados vazam óleo de forma quase contínua.
A crise tem raízes na gestão da indústria petrolífera. A partir dos anos 2000, o governo de Hugo Chávez promoveu uma estatização agressiva da PDVSA, expulsou quadros técnicos e desviou recursos, fazendo os investimentos em manutenção e segurança ambiental despencarem. Sob Nicolás Maduro, a produção caiu de mais de 3 milhões de barris por dia para menos de 1 milhão. Sem recursos e sob sanções, a empresa estatal abandonou parte da infraestrutura.
O biólogo Lenín Parra, da ONG X Lago de Maracaibo, destaca que o petróleo não só contamina diretamente, como também se decompõe e libera nutrientes que fertilizam as algas tóxicas, agravando o ciclo de degradação.
Falência institucional e comunidades à deriva
O colapso ambiental espelha a implosão institucional venezuelana. Estações de tratamento de esgoto foram saqueadas ou abandonadas. Órgãos ambientais perderam orçamento, técnicos e autonomia. Alejandro Álvarez, da organização Clima21, resume: "O lago está sendo tratado como uma fossa. O Estado desapareceu."
Nas comunidades ribeirinhas, o impacto é devastador. Pescadores como José Aular, com mais de quatro décadas de ofício, relatam que as capturas que antes chegavam a centenas de quilos agora mal atingem alguns quilos por semana. Redes são inutilizadas pelo óleo, motores entopem e os peixes somem. Aular desenvolveu lesões na pele após contato frequente com a água contaminada.
A crise é também sanitária. Em um país com acesso intermitente à água potável, moradores usam a água do lago para lavar, cozinhar e até beber, multiplicando casos de intoxicação, doenças de pele e problemas gastrointestinais.
Um ponto de não retorno e o paradoxo chavista
Apesar do discurso oficial sobre uma "agenda verde", ações concretas são pontuais e insuficientes, limitando-se a mutirões de limpeza que não atacam as causas do problema. Críticos afirmam que o chavismo aprofundou a dependência do modelo extrativista de petróleo, destruiu mecanismos de controle ambiental e transformou a indústria em instrumento político.
Um ex-técnico da PDVSA, que pediu anonimato, avalia: "O lago é vítima do mesmo modelo que quebrou a economia venezuelana: centralização, improviso, ideologia no lugar de gestão."
Especialistas alertam que o Lago Maracaibo se aproxima de um ponto de irreversibilidade. Sem investimentos massivos em saneamento, recuperação da infraestrutura petrolífera e governança ambiental, o ecossistema pode colapsar de forma definitiva. O paradoxo é brutal: o lago que financiou o projeto político chavista agora expõe seus limites de forma mais crua. Onde antes fluía riqueza, hoje restam apenas resíduos e abandono, sintetizando a troca de um desenvolvimento sustentável por uma exploração sem futuro.