Fumaça de queimadas toma conta de bairros de Boa Vista durante período crítico de seca
Uma espessa cortina de fumaça se espalhou por ruas de diversos bairros de Boa Vista na noite desta sexta-feira (20 de fevereiro de 2026), transformando o céu da capital roraimense em um panorama acinzentado e preocupante. O fenômeno ocorre em um momento especialmente crítico: Roraima lidera o número de focos de calor registrados em todo o país neste mês de fevereiro, conforme dados atualizados do Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Bairros afetados e situação estadual
A fumaça atingiu áreas residenciais importantes da cidade, incluindo Jardim Primavera, Santa Teresa, Mecejana, Cambará, Laura Moreira, Cauamé, 31 de Março, Senador Hélio Campos, Centenário, Jóquei Clube, São Francisco, Tancredo Neves e Aeroporto. Moradores relataram a súbita mudança na qualidade do ar e a visibilidade reduzida durante a noite.
Até esta sexta-feira, Roraima acumulava 271 focos de calor, ocupando a primeira posição no ranking nacional de fevereiro de 2026. O estado é seguido pela Bahia, com 238 focos, e pelo Pará, com 200 registros. Os focos de calor representam zonas com ressecamento e elevação de temperatura que podem facilmente evoluir para incêndios florestais ou queimadas descontroladas.
Análise meteorológica e período de seca
De acordo com o meteorologista Ramón Alves, a fumaça que cobriu Boa Vista provavelmente tem origem em queimadas, incêndios florestais ou focos dentro da área urbana – esta última prática é expressamente proibida. "A fumaça que se espalhou pela capital pode ser decorrente de um incêndio florestal próximo à cidade", explicou o especialista.
Alves alertou para o momento especialmente delicado: "E agora todo cuidado é pouco, porque nós estamos no final do período seco, que são os meses mais críticos em relação ao período seco, onde temos baixas precipitações acumuladas mensais nos meses de fevereiro e março. Temos aí até março muitos dias sem chuvas, com poucas chuvas nesse período. Então todo cuidado é pouco, principalmente em relação a questão de incêndios florestais".
Atualmente, Roraima enfrenta seu período de seca anual, que deve persistir até abril, criando condições ideais para a propagação de incêndios.
Resposta dos bombeiros e monitoramento
Em nota oficial ao g1, o Corpo de Bombeiros informou que não recebeu chamados específicos para atender ocorrências nos bairros afetados pela fumaça. Entretanto, na mesma noite de sexta-feira, a corporação atuou em ocorrências no bairro São Bento, na região do Truaru (área rural de Boa Vista), e no município de Cantá.
Os bombeiros destacaram que incêndios menores podem ter ocorrido sem acionamento da equipe, e que os focos de calor são monitorados diariamente por satélite. Quando identificados como ativos, equipes especializadas são imediatamente enviadas para combater as chamas.
"Então esses incêndios, ocorridos em outras localidades, por questões de velocidade do vento e condensação do ar, podem ter ocasionado essa fumaça condensada nos bairros mencionados", explicou representante da corporação.
Contexto histórico e ranking municipal
Dos dez municípios brasileiros com mais focos de calor desde o início de fevereiro, nove estão localizados em Roraima. Caracaraí, no sul do estado, lidera com impressionantes 71 focos. Em seguida aparecem Rorainópolis, com 41 registros, e Bonfim, com 24 focos detectados.
Apesar da liderança nacional atual, o total registrado em Roraima ainda está abaixo da média histórica para o período, que é de 427 focos. No entanto, o número já supera significativamente o de fevereiro de 2025, quando foram contabilizados apenas 83 focos.
O ano de 2024 foi especialmente devastador: Roraima registrou recorde histórico de focos de calor, com 5.358 ocorrências – o maior número desde 1998, quando o INPE iniciou o monitoramento sistemático das queimadas na Amazônia. Naquele período, a fumaça dos incêndios encobriu o céu de Boa Vista e de municípios do interior por vários dias consecutivos, criando uma "cortina cinzenta" que chegou a provocar a suspensão de aulas para proteger estudantes da exposição à poluição atmosférica.
A situação atual serve como alerta para as autoridades e população, destacando a necessidade de medidas preventivas durante este período de seca extrema que afeta especialmente o estado mais setentrional do Brasil.



