Extinção silenciosa de presas coloca onça-pintada em risco na Mata Atlântica
Uma pesquisa conduzida por cientistas brasileiros estabeleceu uma relação direta entre a escassez de alimento e o número reduzido de onças-pintadas na Mata Atlântica. Os pesquisadores alertam que, se a diminuição das espécies que servem de presa persistir, o felino pode desaparecer completamente do bioma. O estudo, publicado na revista Global Ecology and Conservation, revela um cenário preocupante de baixa abundância e biomassa das presas preferenciais da onça.
Metodologia e áreas analisadas
O levantamento abrangeu nove áreas protegidas da Mata Atlântica, incluindo parques nacionais, estaduais e uma área de proteção ambiental. Antes do trabalho de campo, os pesquisadores revisaram estudos publicados entre 1983 e 2025 sobre a dieta da onça, analisando 719 amostras e identificando 36 itens alimentares. Eles selecionaram 14 espécies de mamíferos que formam a base alimentar do felino, como catetos, queixadas, cervídeos, antas e pacas.
Foram instaladas câmeras automáticas em 496 pontos, com duas armadilhas em cada, distribuídos em grade com 1 km de distância. As câmeras operaram 24 horas por dia por aproximadamente 30 dias em cada área. Utilizando modelos matemáticos, os cientistas calcularam a média de animais e o peso total de biomassa disponível para as onças, considerando fatores como frequência de detecções e características ambientais.
Resultados alarmantes
O estudo mostrou que, em quase todas as áreas analisadas, há poucos animais das 14 espécies de mamíferos essenciais para a alimentação da onça-pintada. Em várias regiões, a média ficou abaixo de cinco indivíduos por espécie por ponto monitorado, indicando números insuficientes para sustentar um predador de grande porte a longo prazo. A biomassa somada de todas as espécies ficou abaixo de 100 kg na maioria das áreas, exceto no Parque Nacional do Iguaçu, que apresentou 27,3 indivíduos em média e 638 kg de biomassa, concentrando a maior população de onças do bioma.
Segundo a professora Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, coordenadora da pesquisa, o desaparecimento lento e contínuo das presas configura uma "extinção silenciosa". Ela enfatizou: "Se nada for feito, nós seremos o primeiro bioma do mundo a ter um predador de topo de cadeia, que no caso é a onça-pintada, extinto. Perdê-la seria uma tragédia ambiental de proporções sem tamanho".
Causas e impactos potenciais
A pesquisa identificou que áreas com maior facilidade de acesso humano apresentam menos mamíferos de médio e grande porte, devido à pressão de caça e à ocupação humana. A falta de fiscalização adequada em unidades de conservação, a cultura histórica da caça e a ausência de alternativas socioeconômicas contribuem para a redução das presas. Ferraz destacou que reforçar a fiscalização é crucial, juntamente com o controle de ameaças e o engajamento de moradores locais.
O desaparecimento da onça-pintada poderia desencadear um efeito cascata no ecossistema. Com menos predadores, as populações de herbívoros aumentariam, alterando a vegetação e potencialmente causando perda de biodiversidade, mudanças no solo, proliferação de espécies exóticas e liberação de patógenos que podem afetar a saúde humana. Embora outras espécies possam ocupar a posição de predador de topo, a função ecológica única da onça, que se alimenta de presas maiores em proporções específicas, não seria restabelecida.
Estimativas recentes indicam que a população de onças na Mata Atlântica é crítica, com cerca de 25 indivíduos no Parque Nacional do Iguaçu e menos de 50 em toda a Serra do Mar, enquanto algumas áreas não registram mais a presença do felino. A pesquisa reforça a urgência de ações de conservação para evitar a extinção deste ícone da fauna brasileira.



