O desmatamento do Cerrado em Minas Gerais cresceu quase 92% em sete meses, alcançando uma área maior que a de Belo Horizonte. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que o bioma perdeu 342 km² entre agosto de 2025 e março de 2026, período analisado pelo levantamento. O avanço foi registrado pelo sistema de detecção em tempo real do Inpe, na comparação com o mesmo intervalo entre 2024 e 2025. Em Minas, a situação é considerada alarmante.
'Caixa d’água do Brasil' sob pressão
O Cerrado é conhecido como o “berço das águas” do país: 8 das 12 bacias hidrográficas brasileiras são abastecidas por ele. A vegetação possui raízes profundas, responsáveis por manter o fluxo dos lençóis freáticos, mesmo em períodos de seca. De acordo com a bióloga e botânica Fernanda Raggi, especialista no bioma, a preservação é essencial para garantir esse equilíbrio hídrico. Ela destaca que há espécies com grande capacidade de regeneração, mas que dependem da integridade do solo. Entre as espécies ameaçadas está o faveiro-de-Wilson (Dimorphandra wilsonii), com cerca de 400 indivíduos registrados em Minas, muitos fora de áreas protegidas. Outras plantas, como uma espécie de Ocotea e outra de Microlicia, também estão sob risco. Na fauna, o lobo-guará sofre com a perda de habitat.
Proteção limitada
O Cerrado ocupa cerca de 24% do território nacional, mas apenas 8,21% da área está em unidades de conservação. Em Minas Gerais, exemplos de proteção incluem áreas como o Parque Estadual da Serra do Rola-Moça. Ainda assim, especialistas alertam que preservar apenas essas unidades não é suficiente. Pela legislação, propriedades rurais devem manter 20% da área como reserva legal no Cerrado — percentual menor que o exigido para a Mata Atlântica, de 50%.
Impacto no clima e na produção agrícola
Um estudo publicado na revista Nature Sustainability por pesquisadores do Inpe, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma universidade alemã, aponta que o desmatamento já afeta o regime de chuvas. Segundo Argemiro Teixeira, pesquisador do Inpe, a estação chuvosa no Cerrado está mais curta. "Isso não é só devido às mudanças climáticas globais [...], isso é devido às alterações que a remoção de vegetação nativa do Cerrado causam no clima local e regional." A redução das chuvas pode comprometer a chamada “dupla safra”, modelo comum na região, em que soja e milho são plantados na mesma área.
Preservação como alternativa econômica
Na Serra da Canastra, o produtor rural Anael de Souza decidiu interromper o desmatamento e transformar a propriedade em uma reserva particular. Com isso, passou a investir no turismo e afirma que o Cerrado se regenerou naturalmente ao longo do tempo. "O Cerrado renasceu. Essa é a primeira motivação do turista que vem. Ele quer árvore, bicho selvagem, cachoeira. E tem também o valor econômico, financeiro", afirma Anael.
Fiscalização e ações do estado
A Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais informou que realizou mais de 11 mil fiscalizações entre abril de 2025 e março de 2026, principalmente nas regiões Norte, Noroeste, Jequitinhonha e Nordeste do estado. As ações incluem monitoramento da vegetação e apuração de denúncias. Quando há irregularidades, as penalidades vão de multas ao embargo de áreas e à obrigação de recuperar a vegetação nativa. A Federação da Agricultura e Pecuária de Minas Gerais foi procurada, mas não havia se manifestado até a última atualização desta reportagem.



