Cidades globais eliminam anúncios de combustíveis fósseis em espaços públicos
Uma tendência global está transformando as paisagens urbanas em diversas partes do mundo. Cidades estão progressivamente eliminando anúncios de voos, SUVs, navios de cruzeiro e carros a gasolina dos seus outdoors e espaços publicitários públicos, numa tentativa concreta de reduzir as emissões de carbono e combater as mudanças climáticas.
Haia pioneira na proibição legislativa
Quando o centro de Haia, na Holanda, implementou sua proibição em 2024, tornou-se o primeiro lugar do mundo a adotar esta medida através de uma lei local específica. A mudança foi perceptível: onde antes havia cartazes promovendo viagens aéreas para destinos distantes e automóveis movidos a combustíveis fósseis, agora predominam mensagens mais alinhadas com a sustentabilidade ambiental.
Robert Barker, vice-prefeito de Haia, explicou a motivação: "Como Cidade Internacional da Paz e da Justiça e importante centro das Nações Unidas, consideramos importante demonstrar que falamos sério ao lidar com a crise climática. Por isso, é realmente um tanto estranho se, em um espaço público, tivermos muitos anúncios de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, dissermos para as pessoas que 'precisamos reduzi-los'."
Expansão global do movimento
Desde então, dezenas de municípios em diferentes continentes seguiram o exemplo. O distrito de Saint-Gilles na Bélgica, a capital sueca Estocolmo, e mais recentemente a cidade italiana de Florença implementaram restrições similares. Em janeiro de 2026, Amsterdã se tornou a primeira capital mundial a estabelecer a proibição em lei, indo além ao incluir também a publicidade de carne em seus espaços públicos.
No Reino Unido, cidades como Edimburgo, Sheffield e Portsmouth criaram políticas que vetam anúncios de empresas de combustíveis fósseis, companhias aéreas, aeroportos, carros alimentados por derivados de petróleo, SUVs e navios de cruzeiro em propriedades municipais. Na Austrália, 19 jurisdições já implementaram algum tipo de restrição, incluindo Sydney, a maior cidade do país.
Base científica e apoio internacional
O movimento encontra respaldo em pesquisas científicas e declarações de autoridades internacionais. Um estudo de 2023 para legisladores holandeses concluiu que a publicidade de combustíveis fósseis "normaliza e promove o comportamento insustentável", prejudicando ativamente as políticas climáticas.
Em 2024, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que a desinformação climática, particularmente da indústria de combustíveis fósseis, foi "auxiliado e incentivado pelas empresas de publicidade e relações públicas", pedindo a todos os países que proíbam essa publicidade. Maria Neira, diretora de saúde pública e clima da Organização Mundial da Saúde, descreveu os combustíveis fósseis como "o novo cigarro".
Eficácia comprovada por precedentes
Embora seja cedo para avaliar o impacto completo das proibições de anúncios de combustíveis fósseis, evidências de restrições anteriores em outros setores são promissoras. Quando o transporte público de Londres proibiu anúncios de alimentos não saudáveis em 2019, as famílias reduziram em média 1.000 calorias em suas compras semanais, com queda particular em doces e chocolates.
No Chile, restrições à publicidade de fast food destinadas a melhorar a saúde infantil resultaram em queda de 24% nas compras de bebidas doces e aumento no consumo de opções saudáveis. O consumo global de cigarros também diminuiu significativamente após as restrições publicitárias que começaram nos anos 1960.
Desafios e limitações
As proibições enfrentam obstáculos legais e práticos. Na Holanda, a organização da indústria de viagens ANVR e três operadoras de turismo entraram na Justiça em 2024, alegando que a lei de Haia feria seu direito à liberdade de expressão. No Canadá, uma campanha em Toronto foi rejeitada em julho de 2025, com vereadores argumentando sobre a complexidade de definir o que é publicidade enganosa.
Nos Estados Unidos, a Primeira Emenda à Constituição protege a publicidade, tornando as restrições sujeitas a análise judicial rigorosa. Além disso, as cidades têm controle limitado sobre a publicidade online, onde os governos nacionais também enfrentam dificuldades regulatórias.
Estratégias complementares
Especialistas destacam que as proibições não funcionam isoladamente. O governo holandês foi aconselhado a combinar as restrições publicitárias com outras políticas para realmente mudar o comportamento dos consumidores. Haia, por exemplo, está incentivando o uso de carros elétricos através da criação de mais pontos de carregamento e oferecendo empréstimos sem juros para instalação de bombas de calor e isolamento térmico.
Cassie Sutherland, diretora-gerente da rede C40 Cities, observa: "As cidades costumam ser muito ambiciosas em relação ao clima. E elas também têm longo registro de tomada de decisões que são reproduzidas nacionalmente, como transporte limpo e redução de resíduos."
Impacto cultural e simbólico
Além dos efeitos diretos no consumo, as proibições têm importante dimensão simbólica. Em relatório de 2025, a relatora especial da ONU sobre direitos humanos e mudanças climáticas, Elisa Morgera, criticou como os anúncios de combustíveis fósseis moldaram a percepção pública por décadas, menosprezando impactos aos direitos humanos e enfatizando sua participação no crescimento econômico.
Para Barker, a comparação com o cigarro é precisa: "Fumar destrói os nossos pulmões e os combustíveis fósseis destroem os pulmões do planeta. Por que incentivar algo que tem efeitos devastadores para a Terra?" O movimento continua a expandir-se, representando uma frente inovadora na luta contra as mudanças climáticas através do controle do espaço publicitário urbano.
