Campo Grande se prepara para sediar a COP-15 da ONU em 2026, destacando papel crucial na conservação de aves migratórias
Às vésperas da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP-15/CMS), especialistas ressaltam a relevância de Campo Grande para a biodiversidade global. Levantamentos indicam que a capital de Mato Grosso do Sul abriga aproximadamente 400 espécies de aves nas áreas urbana e periurbana, com cerca de 20% delas sendo migratórias. Entre os dias 23 e 29 de março de 2026, a cidade receberá um dos principais eventos ambientais do mundo, organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Expectativa de participação internacional e foco em estratégias globais
A previsão é que entre 2 mil e 3 mil representantes de mais de 130 países participem das discussões sobre estratégias globais de proteção das espécies migratórias. Este evento colocará Campo Grande no centro do debate ambiental internacional, reforçando seu compromisso com a sustentabilidade.
Campo Grande como refúgio essencial para aves migratórias
Campo Grande é reconhecida internacionalmente pela presença de áreas verdes, parques ecológicos, cursos d’água e vegetação distribuída por diversos bairros. Essa combinação transforma a cidade em um importante refúgio para a fauna, especialmente para aves que cruzam continentes e encontram na região locais de descanso, alimentação e até reprodução.
A pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites, do Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo, explica que a diversidade de aves na cidade é surpreendente. Segundo ela, “a migração é um fenômeno natural e biológico que provoca deslocamentos periódicos de populações animais entre regiões diferentes, geralmente entre áreas de reprodução e locais de alimentação ou descanso”.
Diversidade de espécies migratórias que passam pela região
Diferentes espécies passam por Campo Grande ao longo do ano, seguindo ciclos naturais em busca de alimento, clima favorável ou locais de reprodução. Entre os grupos que utilizam a região estão:
- Aves migrantes neárticas: vindas da América do Norte para fugir do inverno rigoroso do hemisfério norte, aparecendo com mais frequência entre agosto e abril. Exemplos incluem maçaricos, sovi-do-norte, águia-pescadora e falcão-peregrino, considerado o animal mais rápido do planeta, capaz de atingir cerca de 300 km/h.
- Aves migrantes austrais: realizam deslocamentos dentro da América do Sul em busca de temperaturas mais amenas, sendo vistas entre abril e novembro, como o príncipe e a calhandra-de-três-rabos.
- Aves que se reproduzem no sul e sudeste do Brasil: depois seguem para o norte do continente, muitas vezes até a Amazônia, como tesourinha, bem-te-vi-rajado e suiriri, observadas na cidade entre o final de julho e março ou abril.
Importância crítica das áreas verdes para as rotas migratórias
Segundo especialistas, esses deslocamentos seguem ciclos naturais que se repetem todos os anos. Muitas aves guardam memória dos locais onde encontram alimento, abrigo e condições adequadas para descansar durante suas longas jornadas. Por isso, a preservação de áreas verdes, árvores e fontes de água é considerada essencial para garantir que Campo Grande continue sendo um ponto seguro nas rotas migratórias.
A gerente de Arborização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades), Dayane Zanela, explica que a arborização urbana tem papel estratégico. “Árvores, parques e corredores verdes oferecem abrigo, locais de repouso, suporte alimentar e condições ambientais favoráveis para essas espécies durante seus deslocamentos”, afirma.
Reconhecimentos ambientais e preparativos para a COP-15
Esse conjunto de políticas ambientais ajudou a consolidar o reconhecimento de Campo Grande como Capital do Turismo de Observação de Aves. A cidade também recebeu seis vezes o título internacional “Tree City of the World”, concedido a municípios que adotam políticas de preservação e gestão urbana voltadas ao meio ambiente.
Durante a COP-15, autoridades, cientistas, organizações ambientais e representantes da sociedade civil vão discutir medidas para fortalecer a proteção das espécies migratórias em todo o planeta. Entre os temas que devem ser debatidos estão:
- Combate à captura ilegal de animais
- Criação de planos de conservação para espécies ameaçadas
- Proteção de corredores ecológicos usados nas rotas migratórias
- Impactos das mudanças climáticas e da perda de habitat
Atualmente, cerca de 1.189 espécies migratórias são protegidas pela convenção internacional, incluindo aves, mamíferos, peixes, répteis e até insetos.
Pantanal coloca Mato Grosso do Sul no centro do debate ambiental
A escolha de Mato Grosso do Sul para sediar o evento também está ligada à importância do Pantanal, considerado a maior área alagável do mundo. O bioma funciona como ponto estratégico para diversas espécies migratórias que utilizam a região como local de descanso e alimentação durante longas viagens.
Além da importância ecológica, esses animais também têm impacto direto na vida humana. Eles contribuem, por exemplo, para a polinização de plantas, dispersão de sementes e manutenção dos ecossistemas, além de estimular atividades econômicas sustentáveis, como o ecoturismo.
Para Maristela Benites, sediar um evento desse porte representa um marco para o município e para o estado. “É um momento histórico para Mato Grosso do Sul. O evento coloca Campo Grande como palco das discussões globais sobre conservação ambiental, além de mostrar nossa biodiversidade, nossos biomas e mobilizar a sociedade para um tema fundamental”, afirma.
Durante a conferência, o Instituto Mamede também participará da programação científica, coordenando uma mesa sobre observação de aves e espécies migratórias, além de lançar o livro “Aves do Caminho da Escola”, que aborda a relação entre educação ambiental e a observação de aves no cotidiano.
