Em um marco histórico para a conservação ambiental, a arara-vermelha-grande (Ara chloropterus) voltou a nascer livre na Mata Atlântica. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) registrou, em abril de 2026, o nascimento dos primeiros filhotes na natureza, quase 200 anos após a extinção da espécie neste bioma.
Um resgate histórico
Historicamente, a arara-vermelha-grande possuía ampla distribuição geográfica e habitava quase todo o território nacional. Sua imponência e beleza encantaram os primeiros europeus que chegaram ao Brasil, sendo descrita na Carta de Pero Vaz de Caminha, em 1500, como "papagaios vermelhos, muito grandes e formosos". Viajantes do passado, como o príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, também documentaram a ocorrência da espécie entre Salvador e o Rio Mucuri. No entanto, a captura ilegal e o desmatamento desenfreado varreram a arara-vermelha-grande de todo o litoral brasileiro. Até o início deste projeto, as populações selvagens resistiam apenas no interior do país, concentradas principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.
De volta à natureza
Para reverter esse cenário e promover o retorno da espécie ao litoral, o Projeto de Reintrodução da Arara-vermelha-grande na Mata Atlântica foi iniciado em 2022. Conduzido pelo Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama em Porto Seguro, no sul da Bahia, o programa utiliza apenas aves oriundas de cativeiro — resgatadas do tráfico de animais silvestres ou doadas por particulares — já que não havia mais exemplares selvagens na região.
A jornada de volta à liberdade exige um processo rigoroso de reabilitação:
- As aves passam por identificação com anilhas metálicas e microchips.
- O protocolo inicial exige quarentena, testes sanitários e avaliações comportamentais e clínicas.
- Os animais são inseridos em viveiros de voo para treinamento focado em socialização e condicionamento físico.
- A adaptação ao ambiente natural é estimulada com a oferta de frutos nativos e a instalação de caixas-ninho artificiais.
A área escolhida para a soltura abrange cerca de 7 mil hectares de floresta em estágio avançado de regeneração. O território engloba a Estação Veracel, localizada em Porto Seguro, que é a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) de Mata Atlântica no Nordeste.
Sucesso na reprodução
O primeiro grupo de araras ganhou os céus da região em 2024. Embora os estudos apontassem que o período para a primeira reprodução pudesse demorar até cinco anos, algumas caixas-ninho artificiais já começaram a ser ocupadas no primeiro ano. Em 2026, a formação de casais defendendo ativamente essas estruturas indicou o tão aguardado comportamento reprodutivo. Para garantir a tranquilidade dos animais e não interferir no processo, a equipe optou pelo acompanhamento à distância. A estratégia foi um sucesso e resultou na confirmação do nascimento de dois filhotes. As jovens aves já foram observadas voando, recebendo alimento dos pais e iniciando a exploração da floresta de forma independente.
O feito quebra um antigo estigma na biologia da conservação e comprova que aves mantidas em cativeiro conseguem, sim, retornar à natureza. Com treinamento e convivência com outros indivíduos, o comportamento natural da espécie pode ser totalmente recuperado.
Engenheiras do ecossistema
O retorno da arara-vermelha-grande representa um ganho inestimável para a dinâmica ambiental. Por conta do seu grande porte, a espécie é capaz de transportar sementes por longas distâncias. Ao se alimentar de frutos e espalhar essas sementes, a ave atua como uma "engenheira de ecossistemas", favorecendo diretamente a regeneração florestal e a biodiversidade.
A iniciativa é um esforço conjunto que envolve o Ibama e diversos parceiros estratégicos: a Polícia Militar da Bahia atua na proteção da área; a Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) orienta o treinamento das aves; a Conservix é responsável pela criação dos ninhos; a RPPN Estação Veracel foca na educação ambiental; e a World Parrot Trust viabilizou os viveiros de voo. Zoológicos, centros de reabilitação, entidades de proteção ambiental e proprietários de aves adquiridas de forma legal podem apoiar o projeto disponibilizando araras dessa espécie para integrarem as novas turmas de soltura. O contato com a coordenação do Ibama deve ser feito através do e-mail ligia.ilg@ibama.gov.br.



