Acidificação dos Oceanos Atinge Nível Crítico e Ameaça a Vida Marinha Globalmente
O excesso de dióxido de carbono na atmosfera, impulsionado pela queima de combustíveis fósseis, desmatamento e expansão desordenada do agronegócio, está cobrando um preço altíssimo dos oceanos. Segundo especialistas, as águas marinhas estão se tornando cada vez mais ácidas, ultrapassando limites seguros para a manutenção da vida marinha em escala global.
Alerta de um Fenômeno Silencioso e Devastador
O alerta é do professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Ele explica que o fenômeno, muitas vezes invisível, tem potencial devastador para os ecossistemas marinhos. "A tendência é de redução do pH da água do mar. O aumento da acidez está atingindo níveis alarmantes", afirma Turra. "Estamos vivendo uma situação alarmante em relação a um fenômeno silencioso que tem um potencial relevante em impactar o funcionamento dos sistemas marinhos. A tendência é a piora dessa situação enquanto não resolvemos o problema na raiz, que são as emissões de gás carbônico".
Impacto Direto na Biodiversidade Marinha
O efeito dessa alteração química na água é variado e extremamente perigoso. A acidez interfere diretamente na vida de organismos que dependem do carbonato de cálcio para construir suas estruturas, como esqueletos e conchas:
- Recifes de corais e moluscos se desenvolvem em menor velocidade
- Estruturas ficam mais frágeis e vulneráveis
- Peixes sofrem com danos aos otólitos, estruturas internas responsáveis pelo equilíbrio e audição
"Mas há outros impactos que dizem respeito a diferentes processos biológicos, como, por exemplo, a sobrevivência de larvas, que são organismos muito frágeis e afetados pela acidificação, o que leva à mortalidade ou à má-formação", acrescenta Turra. "Temos também o comportamento dos organismos, com relatos em estudos científicos ilustrando a dificuldade de perceber predadores, dificuldade de locomoção e de encontrar recursos. Com isso, os organismos acabam ficando suscetíveis às adversidades do ambiente".
Busca por Soluções e o Papel da Geoengenharia
Especialistas são categóricos: não é possível enfrentar a mudança climática sem estratégias sérias de mitigação. Acordos globais como o Protocolo de Kyoto, o Acordo de Paris e as discussões da COP 30, no Brasil, reforçam a necessidade de eliminar o uso de combustíveis fósseis. No entanto, a implementação dessas metas enfrenta resistência política e econômica significativa.
Paralelamente à redução de emissões, a ciência busca formas de remediar o dano já feito. Uma das estratégias é o aumento da capacidade de remoção de carbono da atmosfera através do reflorestamento e da restauração de ecossistemas terrestres e marinhos, como manguezais, que funcionam como grandes "esponjas" de carbono.
Existem também propostas mais controversas de geoengenharia:
- "Semear" o oceano com ferro para estimular a produção de microalgas que absorvem carbono
- Controle químico direto da acidez através de compostos como hidróxido de sódio
"A geoengenharia busca fazer um controle químico, reduzindo a acidez do mar diretamente", explica Turra. "Embora os autores do estudo advoguem que estão fazendo para entender os impactos, na verdade eu sou bastante cético. É fundamental entender que essas soluções não são uma solução total e não podem ser colocadas como solução prática, em função da escala e do custo disso".
Meta 30x30 e a Importância das Áreas Protegidas
Para o professor da USP, a melhor defesa ainda é a preservação. Uma das medidas globais mais potentes em discussão é a chamada Meta 30x30, que visa transformar pelo menos 30% dos oceanos em áreas efetivamente protegidas até 2030. Isso daria "fôlego" para que os ambientes naturais consigam resistir às mudanças climáticas.
Segundo Turra, o Brasil possui cerca de 26% de sua área marinha sob jurisdição nacional classificada como protegida, mas, na prática, a proteção nem sempre acontece. Faltam recursos, fiscalização e manejo adequado para blindar essas regiões de ameaças como esgoto e lixo.
"O Brasil é uma liderança internacional nessa agenda, mas tem muitas dificuldades de fazer isso acontecer. Não adianta criar áreas protegidas no Brasil e não criar nos outros países", avalia o especialista.
A proteção dos oceanos custa caro. Por isso, parte da comunidade científica defende a transferência de recursos de países ricos para nações do hemisfério sul, que muitas vezes não têm condições de bancar programas complexos de conservação marinha. O tema é complexo e exige ação conjunta de governos, cientistas e sociedade civil para garantir o futuro da vida nos oceanos.



