Expedição revela sete cavernas inéditas e fauna endêmica na Serra dos Cocais
Uma expedição científica de grande relevância revelou a existência de sete novas cavernas na região da Serra dos Cocais, localizada entre os municípios de Itatiba, Valinhos, Vinhedo e Louveira, no estado de São Paulo. A descoberta, consolidada no final de 2025, abre portas para estudos inéditos sobre a fauna local e o passado geológico da área, destacando a importância dessas formações para o equilíbrio ambiental.
Grupo de pesquisa e metodologia
O trabalho foi realizado pelo Grupo da Geo de Espeleologia (GGEO), fundado por estudantes do Instituto de Geociências da USP, em parceria com o Instituto Serra dos Cocais (ISC). O grupo, que já realizava prospecções e mapeamentos de cavernas graníticas na região de Valinhos, ampliou sua área de atuação para chegar aos novos achados. Segundo os pesquisadores, essas formações desempenham um papel essencial para o equilíbrio ambiental, pois as fissuras e cavidades permitem a infiltração e o armazenamento de água, funcionando como reservatórios naturais que mantêm a umidade e favorecem o desenvolvimento de florestas densas.
"São achados de grande relevância para a Serra dos Cocais, pois permitem a realização de mais pesquisas e estudos para compreender melhor os processos que levam à formação de cavernas graníticas, ao surgimento de estruturas minerais em seu interior, ao impacto na dinâmica hídrica da região e ao reconhecimento das espécies que as habitam ou utilizam", explicam os membros do grupo e do instituto.
Descoberta de bagre potencialmente endêmico
Em uma das cavernas recém-mapeadas, os pesquisadores identificaram um bagre do gênero Ituglanis, apontado como potencialmente endêmico — ou seja, que só existe naquele local específico. "Um forte indício de endemismo é a ausência de registros científicos de espécies desse gênero ocupando cavernas graníticas, o que reforça a hipótese de que as populações presentes na Serra dos Cocais tenham passado por todo o processo de especiação, ou seja, o surgimento de uma nova espécie com o passar do tempo, no próprio local em que vivem", detalha a equipe do estudo.
Observações preliminares, realizadas em conjunto com o Laboratório de Estudos Subterrâneos da UFSCar, indicam um comportamento curioso: indivíduos mais jovens parecem habitar zonas mais profundas e sem luz das cavidades, enquanto os adultos foram registrados próximos à entrada, em áreas iluminadas.
Piscina natural e pistas do passado geológico
Outro achado que surpreendeu o GGEO e o ISC foi uma piscina natural incrustada no granito, localizada no topo de um morro da serra. A suspeita é de que o local tenha preservado pólen fossilizado, que funciona como um registro biológico do passado, estudado pela Palinologia. A análise permite identificar quais plantas existiram ali em diferentes épocas, ajudando a compreender as mudanças climáticas e na vegetação ao longo dos séculos. Se confirmada a presença do pólen, será possível reconstruir a história ambiental da Serra dos Cocais, embora os estudiosos ressaltem que a hipótese ainda depende de coletas em expedições futuras.
Formações minerais raras em granito
As cavernas de granito são formadas por rochas de baixa solubilidade e, por isso, normalmente não apresentam espeleotemas — as famosas formações minerais, como estalactites, comuns em cavernas de calcário. No entanto, a Serra dos Cocais desafiou essa regra. Na chamada Caverna dos Corais, foi identificada a maior concentração de espeleotemas em granito da região, com formações do tipo coraloide, que lembram pequenos corais marinhos.
"Como o ambiente granítico não costuma oferecer condições favoráveis para esse desenvolvimento, a ocorrência dessas estruturas na região tornou-se um dos principais focos do estudo, já que registros desse tipo são raros em escala global", relatam os pesquisadores. Formações semelhantes também foram encontradas nas cavernas do Jequitibá e da Ritinha, reforçando a necessidade de preservação dessas cavidades geológicas únicas.



