Carnaval deixa 120 toneladas de resíduos em Rio Branco e especialista revela graves impactos ambientais
Com o término das celebrações carnavalescas, uma preocupação urgente emerge em relação à destinação e aos efeitos ambientais do lixo produzido durante este período festivo. Em Rio Branco, capital do Acre, aproximadamente 120 toneladas de resíduos foram coletadas nas cinco noites de folia. Já em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, a quantidade ultrapassou as 60 toneladas, evidenciando um desafio significativo de gestão de resíduos pós-Carnaval.
Contaminação hídrica e riscos de alagamentos
Para compreender os impactos ambientais deste volume de lixo, o g1 conversou com o professor Edson Guilherme, da Universidade Federal do Acre (Ufac) e coordenador do projeto Recicla Ufac. Segundo ele, o problema principal reside na composição e na quantidade gerada, com consequências diretas para a rede hídrica estadual se o destino não for adequado.
"Se chover, o que é comum nesta época no Acre, esse material, composto por copos descartáveis, garrafas PET e adereços plásticos como glitter, é levado diretamente para as galerias de águas pluviais, desaguando nos nossos rios, como o Rio Acre e o Rio Juruá", afirmou o especialista.
Com o tempo, o plástico presente nesses materiais se fragmenta em microplásticos, que entram na cadeia alimentar dos peixes e comprometem a qualidade da água. Além disso, o acúmulo de lixo pode obstruir bueiros e canais de água.
"Em cidades com solo amazônico e regime de chuvas intensas, isso acelera processos de alagamentos urbanos, afetando não só a fauna urbana, mas causando erosão e contaminação do solo", detalhou Guilherme.
Emissão de gases de efeito estufa e papel dos aterros
O professor também comentou sobre a estimativa de emissão de gases de efeito estufa a partir das 120 toneladas de lixo geradas no Carnaval de Rio Branco. Dependendo de fatores como composição dos resíduos, destinação e eficiência de captura de biogás, a estimativa fica entre 72 e 120 toneladas de CO₂ equivalente ao longo do tempo de decomposição, caso o lixo seja destinado a aterro sanitário.
"Se parte dos resíduos for reciclada ou compostada, as emissões caem bastante. O número é uma estimativa simplificada, já que cálculos oficiais exigem inventários detalhados", justificou.
Ele destacou que mesmo no aterro sanitário, o lixo continua emitindo gases poluentes, contribuindo para o aquecimento global em escala microclimática. Resíduos orgânicos em aterros passam por decomposição anaeróbica, gerando principalmente metano e dióxido de carbono.
Função do aterro sanitário e resposta da prefeitura
Conforme o especialista, o aterro sanitário tem como função isolar o lixo do meio ambiente e tratar subprodutos perigosos da decomposição. No entanto, ele alerta que esta deve ser a última opção.
"O papel dele deveria ser receber apenas o que não pode ser reciclado nem compostado. Quando as 120 toneladas de lixo do Carnaval de Rio Branco vão direto para o aterro sem separação, por exemplo, estamos 'jogando dinheiro fora' e ocupando espaço precioso", concluiu.
Em resposta ao g1, a Secretaria Municipal de Cuidados com a Cidade (SMCCI) informou que os resíduos são encaminhados à Unidade de Tratamento de Resíduos Sólidos (Utre), e não ao aterro sanitário.
"Esse lixo é destinado a Utre, a parte central de recebimento geral, e de lá as cooperativas fazem a separação dos lixos porque a maioria são recicláveis", resumiu a secretaria.



