Superoferta de energia solar sobrecarrega sistema elétrico e força desligamento de usinas no Brasil
Energia solar sobrecarrega sistema e força desligamento de usinas

Superoferta de energia solar pressiona sistema elétrico brasileiro e exige desligamento de usinas

A superoferta de energia solar está provocando uma sobrecarga significativa no sistema elétrico brasileiro, levando ao desligamento diário de diversas usinas para prevenir apagões e garantir a estabilidade da rede. A energia solar gerada em telhados de residências, estabelecimentos comerciais, propriedades rurais e indústrias já alcança aproximadamente 44 mil megawatts de capacidade instalada em todo o país, consolidando-se como a segunda maior fonte renovável, atrás apenas das hidrelétricas, e continuando sua trajetória de expansão acelerada.

Concentração da produção e ajustes necessários

A produção de energia solar se concentra principalmente no período entre 10h e 16h, quando a oferta de energia frequentemente supera a demanda, exercendo uma pressão considerável sobre a infraestrutura elétrica nacional. Diante desse cenário, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem realizado ajustes diários, solicitando que usinas solares e eólicas reduzam sua geração para evitar instabilidades e possíveis colapsos no sistema.

Dados do ONS revelam que, no ano passado, usinas eólicas e solares deixaram de produzir mais de 20% da energia que poderiam gerar, tanto por determinação do operador quanto devido a limitações de infraestrutura. Essas perdas motivaram empresas do setor a solicitarem compensações ao governo, levando o Ministério de Minas e Energia a abrir uma consulta pública no final do ano passado para discutir soluções e políticas adequadas.

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Problemas de infraestrutura e soluções propostas

O presidente da Associação Brasileira de Energia Solar, Rodrigo Sauaia, aponta que o principal obstáculo é a falta de infraestrutura adequada para escoar a energia produzida. Ele defende investimentos substanciais em redes de transmissão, distribuição e subestações, além de mudanças nos padrões de consumo. "As principais soluções são melhorar e tornar mais robusta a infraestrutura elétrica para que possamos utilizar mais a energia limpa produzida no Brasil", afirmou Sauaia.

Ele também destacou a necessidade de estimular o consumo de energia elétrica durante o dia, quando a oferta é abundante, por meio de iniciativas como a adoção de veículos elétricos, a eletrificação de indústrias, a exportação para países vizinhos, a atração de data centers e a produção de hidrogênio verde. "Além disso, é importante incentivar o uso de energia durante o dia, quando ela está disponível, e desestimular o consumo à noite, quando é mais cara", completou.

Potencial de crescimento e críticas ao modelo atual

Sauaia enfatizou o enorme potencial de crescimento da energia solar no Brasil, comparando com países como a Austrália, onde um em cada três telhados já gera energia solar, enquanto no Brasil essa proporção é inferior a um em cada dez. "Ainda estamos no começo, e a energia solar é uma forma barata, competitiva e limpa de reduzir a conta de luz. O setor elétrico precisa se adaptar para permitir esse avanço", ressaltou.

Por outro lado, o presidente da Associação dos Grandes Consumidores de Energia, Paulo Pedrosa, critica o modelo atual de incentivos às renováveis. Ele argumenta que as regras atuais promovem uma expansão desordenada dos painéis solares, que não são controlados pelo sistema, podendo ameaçar o fornecimento em momentos de alta produção. "O país está fazendo o certo do jeito errado. A energia renovável é a mais barata e, com baterias, pode ser distribuída ao longo do tempo. Mas em momentos de muito sol, isso pode até ameaçar o fornecimento, obrigando o operador a desligar usinas e até a desperdiçar água de hidrelétricas para manter a estabilidade", avaliou Pedrosa.

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Investimentos e perspectivas futuras

O Ministério de Minas e Energia informou que, desde 2023, investiu cerca de R$ 70 bilhões em novas linhas de transmissão e melhorias no sistema, com o objetivo de reduzir os cortes na geração renovável. Esses investimentos são considerados cruciais para acomodar a crescente participação das fontes solares e eólicas na matriz energética brasileira, garantindo que a transição para energias limpas ocorra de forma segura e eficiente.

A superoferta de energia solar, portanto, representa tanto uma oportunidade quanto um desafio para o Brasil, exigindo planejamento estratégico, investimentos em infraestrutura e ajustes regulatórios para que o país possa aproveitar plenamente seu potencial renovável sem comprometer a estabilidade do sistema elétrico.