Energia eólica e solar superam fontes fósseis na matriz elétrica da UE em 2025
Pela primeira vez na história, a geração de eletricidade por usinas eólicas e solares superou a produção de fontes fósseis na União Europeia em 2025. Este marco histórico consolida uma inflexão significativa na matriz energética do bloco, impulsionada pelas pressões da guerra na Ucrânia, pela crise do gás russo e pelas metas climáticas cada vez mais ambiciosas estabelecidas por Bruxelas.
Dados revelam avanço das renováveis
Segundo dados divulgados pelo think tank energético Ember, a soma da geração eólica e solar respondeu por 30% da eletricidade consumida no bloco no ano passado. Este percentual ficou ligeiramente acima dos 29% provenientes de termelétricas a carvão, gás e óleo. Quando consideradas em conjunto com a energia nuclear, as fontes de baixo carbono já representam impressionantes 71% da geração elétrica europeia.
O avanço foi impulsionado sobretudo pela energia solar, cuja capacidade instalada cresceu 19% em 2025, estabelecendo um ritmo recorde. Países como Espanha, Hungria e Holanda já obtêm mais de um quinto de sua eletricidade a partir do sol, refletindo políticas agressivas de incentivo adotadas após o choque energético provocado pela invasão russa da Ucrânia, em 2022.
Contexto da segurança energética
Desde o início do conflito, a segurança energética tornou-se eixo central da política europeia. O corte abrupto no fornecimento de gás russo, que antes da guerra respondia por cerca de 40% das importações do bloco, levou a União Europeia a acelerar projetos renováveis, reativar usinas a carvão de forma temporária e ampliar importações de gás natural liquefeito, sobretudo dos Estados Unidos e do Catar.
Esse movimento foi institucionalizado no plano REPowerEU, lançado em 2022, que combina expansão de renováveis, eficiência energética e diversificação de fornecedores como forma de reduzir a dependência de Moscou. A estratégia, amplamente analisada por jornais como o Financial Times e o Le Monde, ajudou a explicar por que a transição energética ganhou tração mesmo em um cenário de desaceleração econômica e instabilidade política.
Desafios e obstáculos persistentes
Ainda assim, o caminho não foi linear. A seca reduziu a geração hidrelétrica em várias regiões do continente, obrigando a um aumento de 8% na produção a partir do gás para compensar a escassez. Ao mesmo tempo, a participação do carvão caiu para um mínimo histórico de 9,2% da matriz elétrica europeia, com Alemanha e Polônia, tradicionais dependentes do combustível, registrando os menores níveis já observados.
Apesar do avanço estrutural das fontes limpas, a transição enfrenta obstáculos relevantes. Reportagens do Politico Europe e do The Guardian destacam que a falta de investimentos em redes de transmissão e armazenamento tem levado ao desperdício de eletricidade renovável em períodos de alta produção, quando operadores são obrigados a desligar turbinas e painéis para evitar sobrecargas no sistema. Este gargalo ajuda a explicar por que a expansão das renováveis ainda não se traduziu plenamente em contas de luz mais baixas.
Vulnerabilidades e resistências políticas
De acordo com a Ember, os picos de preços registrados no último ano coincidiram com momentos de maior uso de gás, evidenciando a vulnerabilidade do sistema europeu às oscilações desse combustível. No plano político, o avanço das energias limpas ocorre em meio a resistências crescentes.
Pressões de governos como os da Alemanha e da República Tcheca levaram Bruxelas a flexibilizar algumas medidas de redução de emissões em 2025. Além disso, um acordo recente entre a União Europeia e o presidente dos EUA, Donald Trump, para ampliar significativamente as compras de energia americana reacendeu o debate sobre até que ponto o bloco conseguirá, de fato, se desvincular do petróleo e do gás no médio prazo.
Significado simbólico e estrutural
Ainda assim, analistas ouvidos por veículos europeus avaliam que a ultrapassagem dos fósseis por eólica e solar tem valor simbólico e estrutural. Ela indica que a resposta europeia à guerra da Ucrânia não se limitou a substituir fornecedores, mas acelerou uma transformação mais profunda, que reposiciona a matriz elétrica do continente em direção a um modelo menos vulnerável a choques geopolíticos e mais alinhado aos compromissos climáticos do Acordo de Paris.
Este marco histórico, portanto, não apenas reflete os avanços tecnológicos e políticos, mas também expõe os gargalos que ainda precisam ser superados para garantir uma transição energética verdadeiramente sustentável e segura para o futuro da União Europeia.