Cientistas identificam gene que influencia comportamento parental em roedores
Gene ligado a pais afetuosos ou agressivos é descoberto

Gene que pode explicar pais afetuosos ou agressivos é identificado por cientistas

Cientistas do Instituto de Neurociências da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, realizaram uma descoberta fascinante: um gene associado à pigmentação da pele também desempenha um papel crucial no comportamento parental em camundongos. Os resultados dessa pesquisa inovadora sobre as bases neurológicas da paternidade em roedores foram publicados recentemente na prestigiada revista Nature, oferecendo novos insights sobre um fenômeno pouco comum no reino animal.

Comportamento parental nos mamíferos

Existem aproximadamente seis mil espécies de mamíferos em todo o mundo, mas em menos de 5% delas os pais participam ativamente na criação dos filhotes. Geralmente, os pais exibem uma ampla gama de comportamentos, que variam desde os mais afetuosos até os claramente hostis. Os melhores cuidadores assumem um papel ativo nos cuidados, lambendo e limpando os filhotes para mantê-los higienizados, ou abrigando-os sob o ventre para protegê-los das intempéries e mantê-los aquecidos. Por outro lado, os piores cuidadores frequentemente ignoram os filhotes indefesos ou até mesmo os atacam, demonstrando agressividade.

A investigação científica

Os neurocientistas Forrest Rogers e Catherine Peña, juntamente com uma equipe de outros cinco pesquisadores, decidiram investigar as razões por trás dessas diferenças comportamentais tão marcantes. Eles escolheram como modelo de estudo o camundongo listrado africano (Rhabdomys pumilio), uma espécie que apresenta reações distintas perante suas crias após se tornar pai. A equipe registrou meticulosamente a atividade neuronal desses roedores em diversas situações, tanto na presença quanto na ausência de filhotes, buscando padrões que pudessem explicar as variações no cuidado paternal.

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Descobertas sobre a área pré-óptica medial

Os pesquisadores descobriram que os pais atenciosos e dedicados apresentavam uma atividade significativamente maior em uma região específica do cérebro conhecida como área pré-óptica medial (MPOA). Embora essa descoberta não seja completamente nova, pois estudos anteriores já haviam mostrado que mães de outras espécies de roedores, como hamsters, também sofrem mudanças nessa mesma área cerebral, ela reforça a importância da MPOA no comportamento parental. "Décadas de pesquisa demonstraram que a MPOA funciona como um centro de cuidados maternos em mamíferos", declarou Rogers ao site especializado Live Science, destacando a relevância dessa região neurológica.

O papel do gene agouti

A equipe então se voltou para uma análise mais detalhada dos cérebros dos camundongos, medindo a atividade gênica nas células da MPOA. Foi nesse momento que os cientistas fizeram uma descoberta surpreendente: pais mais carinhosos e envolvidos também apresentavam níveis mais baixos de atividade gênica de um gene específico chamado agouti, que em estudos anteriores havia sido associado principalmente ao metabolismo e à pigmentação da pele. "Descobrir esse papel até então desconhecido no cérebro, ligado ao comportamento parental, foi emocionante", afirmou Rogers, expressando o entusiasmo da equipe com a nova função identificada para esse gene.

Influência do ambiente e terapia genética

Os pesquisadores observaram ainda que machos solitários também apresentavam níveis menores de atividade gênica no gene agouti em comparação com aqueles que viviam em grupos sociais. Para entender melhor como esse gene influencia diretamente o cuidado paternal, a equipe utilizou terapia genética para aumentar artificialmente a atividade do gene agouti no cérebro dos camundongos, tentando assim imitar a biologia natural de um pai negligente. Os resultados foram claros: quando esses machos reencontravam seus filhotes após o tratamento, demonstravam menos interesse do que antes, e alguns até se tornavam agressivos, atacando as crias.

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O inverso também foi observado de maneira intrigante: ao aplicar um tratamento considerado "natural", transferindo machos de um ambiente comunitário para um ambiente solitário, os pesquisadores descobriram que seus níveis de atividade gênica consequentemente diminuíam e que os animais passavam a demonstrar mais interesse e cuidado pelos filhotes. "Nossas descobertas apontam o agouti como um mecanismo evolutivo potencial que permite aos animais integrar informações ambientais, como competição social ou densidade populacional, e ajustar o equilíbrio entre autoconservação e investimento na prole", explicou Peña, coautora do estudo, enfatizando a complexidade das interações entre genética e ambiente.

Implicações para os humanos e perspectivas futuras

Os pesquisadores destacaram que o gene agouti também existe em seres humanos, mas ressaltaram que ainda são necessários estudos mais aprofundados para compreender seu impacto real na atitude parental e no comportamento de cuidado. "Criar filhos é um traço complexo. Não estamos sugerindo que alguém possa tomar uma pílula para ser um pai ou mãe melhor, nem que dificuldades na criação reflitam alguma deficiência molecular", afirmou Peña, cautelosa em relação a extrapolações precipitadas. A pesquisa abre caminho para futuras investigações que possam explorar como fatores genéticos e ambientais se combinam para moldar o comportamento parental não apenas em roedores, mas potencialmente em outras espécies, incluindo os humanos.