Fechar os olhos para ouvir melhor pode ser contraproducente em ambientes barulhentos, revela estudo chinês
Imagina esta situação: você está ao telefone em uma festa ou em um bar cheio, tentando entender o que alguém diz do outro lado da linha em meio ao barulho das conversas. Para se concentrar melhor na voz da pessoa, fecha os olhos por alguns segundos enquanto escuta. O gesto é comum quando alguém tenta prestar mais atenção a um som, seja uma conversa distante, um barulho discreto ou algo difícil de identificar. A lógica parece simples: sem estímulos visuais, o cérebro teria mais capacidade para se concentrar no que está ouvindo.
Estudo revela efeito oposto ao esperado
Mas um novo estudo indica que, em ambientes barulhentos, essa estratégia pode ter justamente o efeito oposto. Pesquisadores da Shanghai Jiao Tong University, na China, testaram essa hipótese em um experimento que simulou situações com muito ruído de fundo. O trabalho foi publicado nesta terça-feira no periódico científico The Journal of the Acoustical Society of America, ligado à Sociedade Acústica da América (ASA, na sigla em inglês).
No experimento, voluntários ouviram diferentes sons por meio de fones de ouvido enquanto um ruído constante tocava ao fundo. A tarefa era ajustar o volume desses sons até conseguir percebê-los, mesmo que muito discretamente, no meio do barulho.
Quatro condições diferentes testadas
Os testes foram repetidos em quatro condições diferentes:
- Com os participantes de olhos fechados
- Com os participantes de olhos abertos olhando para uma tela vazia
- Observando uma imagem relacionada ao som
- Finalmente assistindo a um vídeo que correspondia ao som que estavam tentando identificar
Resultados surpreendentes
O resultado surpreendeu os pesquisadores. Descobrimos que, ao contrário do que se acredita popularmente, fechar os olhos na verdade prejudica a capacidade de detectar esses sons, afirmou o pesquisador Yu Huang, um dos autores do estudo. Por outro lado, ver um vídeo dinâmico correspondente ao som melhora significativamente a sensibilidade auditiva.
Em outras palavras, quando os participantes podiam ver algo relacionado ao som — como um vídeo compatível com o que estavam ouvindo — eles conseguiam identificar ruídos mais fracos em comparação com quando estavam de olhos fechados.
Monitoramento cerebral revela mecanismo
Para entender o que estava acontecendo no cérebro, os pesquisadores também monitoraram a atividade cerebral dos participantes usando eletroencefalografia (EEG), técnica que registra sinais elétricos do cérebro. A análise mostrou que fechar os olhos leva o cérebro a um estado em que ele filtra os sons de forma mais agressiva.
Isso ajuda a reduzir distrações, mas também pode eliminar sons fracos, justamente aqueles que os participantes estavam tentando ouvir. Em um ambiente sonoro barulhento, o cérebro precisa separar ativamente o sinal do ruído de fundo, explicou Huang. Descobrimos que o foco interno promovido pelo fechamento dos olhos pode trabalhar contra você nesse contexto, levando a uma filtragem excessiva. Já o engajamento visual ajuda a ancorar o sistema auditivo no mundo externo.
Aplicações na vida cotidiana
Os pesquisadores ressaltam que o resultado vale principalmente para ambientes ruidosos. Em lugares mais silenciosos, fechar os olhos ainda pode ajudar a perceber sons fracos. Mesmo assim, os cientistas destacam que grande parte da vida cotidiana acontece cercada por ruídos — de trânsito, conversas, aparelhos eletrônicos ou música ambiente.
Nessas situações, manter os olhos abertos e usar pistas visuais pode facilitar a compreensão do que se está ouvindo.
Próximos passos da pesquisa
A equipe agora pretende aprofundar os experimentos para entender melhor como visão e audição trabalham juntas. Uma das ideias é testar combinações que não correspondem entre si, por exemplo, ouvir o som de um tambor enquanto aparece a imagem de um pássaro.
Queremos saber se esse ganho vem apenas do fato de os olhos estarem abertos e processando mais informações visuais ou se o cérebro precisa que o que vemos e o que ouvimos combinem perfeitamente, disse Huang. Entender essa diferença vai ajudar a separar os efeitos gerais da atenção dos benefícios específicos da integração entre diferentes sentidos.
