Estudo genético revela evidência mais antiga de cães domésticos há 15.800 anos
Pesquisadores de 17 instituições internacionais identificaram a evidência genética mais antiga já registrada da existência de cães domésticos. Através da análise de DNA antigo extraído de ossos encontrados em sítios arqueológicos no Reino Unido e na Turquia, os cientistas confirmaram que esses animais já conviviam com grupos humanos de caçadores-coletores há aproximadamente 15.800 anos. Essa descoberta supera em mais de 5.000 anos o registro genético anterior, conforme publicado na prestigiada revista científica Nature nesta quarta-feira (25).
Origem e dispersão dos cães pela Eurásia
Anders Bergström, pesquisador da Escola de Ciências Biológicas da University of East Anglia e um dos autores do estudo, explica que os primeiros cães da Europa compartilham origem com cães da Ásia e de outras partes do mundo. Isso descarta a hipótese de que tenham sido domesticados de forma independente a partir de lobos locais. A rápida disseminação dos cães pela Eurásia, ocorrida entre 18.500 e 14.000 anos atrás, é considerada fascinante e ainda um pouco misteriosa pelos especialistas.
Dois estudos conduzidos por equipes diferentes, mas publicados na mesma edição da Nature, analisaram ossos encontrados em cavernas na Inglaterra e na Turquia, além de sítios na Alemanha, Itália, Suíça e Sérvia. Juntos, eles demonstram que cães domesticados já estavam amplamente dispersos pelo oeste da Eurásia há pelo menos 14.000 anos, formando uma população geneticamente semelhante apesar da vasta distribuição geográfica.
Análises detalhadas e descobertas surpreendentes
No primeiro estudo, liderado pela Universidade Ludwig-Maximilians de Munique, os pesquisadores examinaram ossos de Pınarbaşı na Turquia (datados de cerca de 15.800 anos), da Gruta de Gough no Reino Unido (aproximadamente 14.300 anos) e de dois sítios mesolíticos na Sérvia. A análise revelou que esses cães paleolíticos eram geneticamente semelhantes e faziam parte de uma população que se expandiu rapidamente, possivelmente acompanhando movimentos humanos.
O segundo estudo, envolvendo universidades do Reino Unido, Alemanha e Suíça, analisou genomas de 216 restos de cães e lobos. O espécime mais antigo identificado como cão vem de Kesslerloch na Suíça, datado em cerca de 14.200 anos. Isso indica que a diversificação genética dos cães domésticos já havia começado antes dessa data, e que os cães paleolíticos europeus não derivam de domesticação independente.
Convívio humano-cão no Paleolítico
Além dos dados genéticos, os pesquisadores encontraram pistas sobre a convivência cotidiana. A análise de isótopos mostrou que cães de Pınarbaşı provavelmente recebiam peixe dos humanos, indicando alimentação deliberada e compartilhamento de recursos. Evidências de enterros intencionais, como na Gruta de Gough, onde ossos apresentam marcas humanas, sugerem que os animais tinham valor simbólico mesmo após a morte.
A análise do DNA também revelou que esses cães antigos eram geneticamente mais próximos de raças modernas como boxers e salukis do que de raças árticas. Isso mostra que as grandes famílias genéticas que deram origem às raças atuais já existiam no Paleolítico Superior.
Lacunas e próximos passos da pesquisa
Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que ainda há lacunas importantes, especialmente sobre onde exatamente a domesticação começou. As evidências atuais apontam para a Ásia como provável ponto de origem, mas faltam dados genéticos robustos de regiões-chave como o leste asiático. Para avançar, será necessário ampliar a base de dados com a análise de novos fósseis, especialmente da Ásia, para rastrear com precisão a origem dessa linhagem e entender melhor os fatores que levaram os cães a se tornarem os primeiros companheiros humanos.



