Pesquisa brasileira descobre composto que pode tratar e bloquear transmissão da malária
Um estudo inovador conduzido por pesquisadores brasileiros da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Universidade de São Paulo (USP) identificou um grupo de compostos químicos com potencial revolucionário no combate à malária. A pesquisa revelou que essas moléculas podem atuar contra o parasita em várias fases do seu ciclo, oferecendo uma abordagem terapêutica mais completa do que os tratamentos atuais.
O diferencial: interrupção completa do ciclo
O aspecto mais promissor da descoberta está na capacidade do composto de não apenas tratar os sintomas da malária, mas também impedir sua transmissão. Isso significa que, se um mosquito picar uma pessoa infectada que tenha sido tratada com essa substância, o inseto não conseguirá passar a doença adiante para outros hospedeiros.
"O estudo mostra que um único composto é capaz de agir dessas duas formas ao mesmo tempo", destacam os pesquisadores. Essa dupla ação representa um avanço significativo, já que a maioria dos medicamentos disponíveis atualmente foca apenas na fase sanguínea da doença, responsável pelos sintomas como calafrios e febre.
Como funciona o composto
A pesquisa analisou derivados das chamadas 4-quinolonas, compostos já conhecidos na ciência, mas que agora demonstraram ação inédita contra diferentes estágios do Plasmodium, parasita causador da malária. Segundo os autores, o composto identificado como "composto 1" apresentou os melhores resultados, com efeito tanto nas fases iniciais da infecção em humanos quanto nas etapas que ocorrem dentro do mosquito.
O mecanismo de ação ataca o parasita em três frentes principais:
- No fígado: impedindo que a doença se instale (ação profilática)
- No sangue: eliminando os parasitas que causam os sintomas
- No mosquito: bloqueando a transmissão para novos hospedeiros
Resultados promissores em testes laboratoriais
Nos testes realizados com amostras de pacientes de Porto Velho, em Rondônia, o medicamento demonstrou capacidade impressionante de reduzir em até 98% a formação de oocistos, os "ovos" do parasita, no mosquito Anopheles darlingi, principal transmissor da malária na Amazônia brasileira.
Outro ponto destacado pelo estudo é a eficácia do composto contra cepas resistentes de Plasmodium falciparum, a espécie mais letal da malária. Atualmente, a resistência a medicamentos é um dos maiores desafios no controle da doença, especialmente em regiões tropicais e de baixa renda.
Anna Caroline Aguiar, autora principal do estudo, explica: "O Plasmodium vivax é um grande desafio de pesquisa porque não pode ser cultivado em laboratório, e suas formas dormentes são difíceis de estudar. Este foi o primeiro estudo a testar a classe das 4-quinolonas contra o parasita a partir de sangue de pacientes infectados".
Contexto da malária no Brasil
A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitida principalmente pela picada da fêmea do mosquito Anopheles infectada. No Brasil, a maioria dos casos se concentra na região amazônica, que inclui os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.
Segundo o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), houve 282 milhões de casos de malária em 2024 em todo o mundo, um aumento de cerca de 9 milhões de casos (3%) em comparação com 2023. A doença continua sendo um grave problema de saúde pública, especialmente em regiões endêmicas.
Próximos passos da pesquisa
Os pesquisadores são cautelosos ao destacar que, até agora, o estudo foi realizado apenas em laboratório e em camundongos. O próximo passo crucial será avançar para estudos pré-clínicos mais detalhados, avaliando segurança e eficácia em modelos que simulem melhor o organismo humano.
"Esses resultados indicam que, no futuro, uma pessoa infectada que tomar o composto poderia deixar de transmitir a malária para outras pessoas. Mas esses são apenas os primeiros indicativos; para ter certeza, ainda precisamos avaliar melhor os compostos em estudos futuros", explica Anna Caroline Aguiar.
Se os resultados continuarem positivos nas próximas fases, o composto poderá seguir para ensaios clínicos em pessoas, etapa necessária antes que se torne um medicamento disponível para a população. Os pesquisadores afirmam que a descoberta justifica novos estudos para o desenvolvimento de fármacos, com o objetivo de transformar essas moléculas em tratamentos clínicos acessíveis.