Cientistas assumem redes sociais para combater fake news com 'influência do bem'
Em meio ao dilúvio de desinformação que inunda as redes sociais, uma nova geração de cientistas e acadêmicos está assumindo um papel crucial no combate às fake news. Utilizando a linguagem da internet para simplificar conceitos complexos, esses profissionais promovem a ciência de forma acessível e envolvente, alcançando milhões de pessoas com conteúdo confiável.
O perigo das falsas promessas e a resposta científica
A nutricionista Megan Rossi, 37 anos, do King's College de Londres, percebeu em seu consultório que clientes aderiam a falsas promessas disseminadas nas redes. "Há muita coisa vendida como milagrosa, sem nenhum embasamento", indigna-se ela, citada pela prestigiada revista Nature em artigo recente que mapeia essa nova onda de influenciadores científicos.
Enquanto muitos influencers sem formação especializada espalham informações sem lastro em pesquisas, cientistas como Rossi estão usando estratégias digitais para neutralizar o dilúvio de informações ruins. A publicação da Nature destacou cinco casos exemplares em uma amostra muito maior, enfatizando que "para neutralizar o dilúvio de informações ruins, criadores de conteúdo pró-ciência estão usando estratégias de influencers".
A linguagem da internet a serviço da ciência
Um elo comum entre esses propagadores do conhecimento de alto nível é a habilidade para usar a linguagem da internet a seu favor, abandonando jargões técnicos em favor de vocábulos simples e ideias expressas com clareza e agilidade. A bióloga Mariana Krüger, 36 anos, campeã nacional em seguidores no nicho científico com 4,4 milhões, explica sua abordagem: "Escolho cenários e figurinos a dedo para estimular o engajamento".
Durante a pandemia, Krüger experimentou dissabores diante da fartura de fake news sobre vacinas contra a covid-19 e a glorificação da cloroquina, o que a motivou a partir para a ação. Hoje, ela é influencer em tempo integral, mergulhando em artigos científicos antes de criar roteiros para vídeos ligeiros onde ora se veste de bactéria, ora de cérebro.
Impacto positivo e alcance massivo
O inglês Emanuel Wallace, conhecido como Big Manny, acumula 4 milhões de espectadores virtuais com experimentos químicos superinteressantes. "Sei que não pareço um cientista típico", reconhece ele, demonstrando como a quebra de estereótipos pode ampliar o alcance da ciência.
Especialistas celebram o ingresso nas redes desses profissionais bem preparados. "É preciso haver cada vez mais discussões sobre saúde em canais não convencionais", afirma Amelia Burke-Garcia, diretora do Centro de Ciências da Comunicação em Saúde da Universidade de Chicago.
Desafios da desinformação e iniciativas regulatórias
Um levantamento da Universidade de Sydney analisou 1.000 publicações de perfis que se passam por entendidos e revelou dados alarmantes: 94% discorrem sobre tópicos complexos sem evidências, sendo que 87% concentram-se apenas nos benefícios do que defendem. "As mídias digitais são um poderoso veículo de marketing, o que é especialmente nocivo na área médica", alerta Brooke Nickel, responsável pela pesquisa.
Ao redor do mundo, governos tentam reduzir a desinformação na área da saúde. França e China estão entre os países que impõem multas significativas a quem discute saúde sem formação apropriada. No Brasil, tramita no Congresso um projeto que exige certificação para falar sobre medicamentos, terapias e procedimentos médicos no ambiente online.
União de forças contra soluções enganosas
A farmacêutica Laura Marise, 38 anos, e a bióloga Ana Bonassa, 37 anos, ambas com PhD, uniram forças contra soluções enganosas nas redes. "Muito influenciador só quer vender produto sem nem saber se é bom", critica Laura. Juntas, elas alcançaram a marca de 1 milhão de seguidores com conteúdo exclusivamente digital.
A química Kananda Eller, 29 anos, destaca a importância de acompanhar as tendências: "Busco sempre acompanhar o que está viralizando. É um desafio acompanhar a velocidade das redes". Essa adaptação ao ritmo digital é essencial para que a informação científica confiável consiga competir com a desinformação que se espalha rapidamente.
Essa nova leva de cientistas-influencers serve como contraponto necessário à enxurrada de dados enganosos que circulam na vastidão das redes sociais. Ao combater mitos sobre aquecimento global, campanhas antivacina e soluções mágicas para emagrecimento, eles estabelecem fronteiras claras entre o que vale ser consumido e o que precisa ser descartado em prol da excelência científica e do zelo com a saúde pública.



