Cientistas brasileiros exploram universo microscópico da Antártica em busca de vírus e remédios
O continente mais frio e isolado da Terra costuma ser retratado como um deserto branco dominado por gelo e silêncio. No entanto, para os cientistas que atuam na Antártica, o cenário é profundamente diferente. Sob a neve, no solo congelado e até no ar, existe um universo invisível de microrganismos que pode revelar desde ameaças globais até novos caminhos para a medicina. É nesse ambiente extremo que pesquisadores brasileiros desenvolvem o projeto Fioantar, uma iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) dentro do Programa Antártico Brasileiro (Proantar).
O esverdeamento da Antártica e a busca por respostas
A nova fase do programa, iniciada em janeiro de 2026, amplia a vigilância de patógenos e a pesquisa sobre a biodiversidade microscópica da Antártica. Adriana Vivoni, coordenadora adjunta do projeto, explica que o trabalho vai muito além da simples coleta de amostras. "Quando as pessoas olham a Antártica pela televisão, elas veem apenas gelo. Mas a Antártica está passando por um processo de esverdeamento e cada vez encontramos menos gelo, principalmente na Península Antártica, que é a região mais próxima da América do Sul", afirma. O objetivo central é compreender o que vive ali e quais são os riscos e oportunidades escondidos nesse universo microscópico.
A biodiversidade antártica é um tesouro ainda muito pouco explorado. O projeto tenta reconhecer essa biodiversidade, saber o que temos aqui, o que pode ser trazido do continente e também qual é o potencial dessa microbiota — tanto patogênico quanto de uso na saúde e na biotecnologia.
Rotina na Estação Comandante Ferraz: desafios e belezas
A vida científica acontece na Estação Antártica Comandante Ferraz, base brasileira instalada na Península Antártica. Ali, o cotidiano pode mudar completamente de um dia para o outro. "Cada dia é diferente. Um dia você acorda com céu azul e mar azul, sem nenhuma nuvem. No dia seguinte está nevando. No outro tem nevoeiro e você mal consegue ver a baía na frente da estação", conta Adriana. Mas existe um detalhe que marca profundamente quem passa semanas ou meses ali: a luz constante. "O que mais me impressiona não é o vento nem o gelo. É a presença da luz. Dependendo da época do ano, meia-noite ainda está claro e às três da manhã já está claro de novo. Você praticamente não vê a noite."
Outra surpresa para quem imagina um continente silencioso é justamente o oposto. "A gente pensa que a Antártica é silenciosa, mas aqui não tem muito silêncio. Ou é o barulho do vento ou é o barulho da vida — da fauna, dos pássaros, dos mamíferos." Apesar do ambiente hostil, pequenos detalhes criam memórias marcantes para os pesquisadores. "Quando a estação começa a acordar, você desperta com o cheirinho de pão sendo feito aqui mesmo. O café da manhã com cheiro de pão fresco é uma memória afetiva muito forte."
Quem manda é o clima: adaptação constante
Trabalhar na Antártica exige adaptação constante. Diferente dos laboratórios no Brasil, onde quase tudo é controlado, no continente gelado quem define a rotina é o clima. "Nós somos pesquisadores acostumados a trabalhar em laboratório com condições controladas. Aqui é completamente diferente. Quem manda é o tempo", diz Adriana. Saídas de campo planejadas com semanas de antecedência podem ser canceladas em poucos minutos. Mesmo quando as equipes conseguem chegar ao local de coleta, a situação pode mudar rapidamente.
A segurança das equipes é prioridade e toda a logística depende da Marinha do Brasil, responsável pelo transporte, hospedagem e operações científicas. "São eles que trazem a gente para cá, que nos levam aos pontos de coleta e cuidam de toda a infraestrutura."
Vírus, biodiversidade e novos medicamentos: as frentes de pesquisa
O Fioantar trabalha em duas grandes frentes: vigilância em saúde e bioprospecção — a busca por substâncias naturais com potencial medicinal. Uma das preocupações dos pesquisadores é entender como vírus e outros patógenos circulam entre a Antártica e outros continentes. Recentemente, por exemplo, a equipe acompanhou a disseminação da influenza aviária. "Tivemos a oportunidade de acompanhar a epidemia de influenza aviária de alta patogenicidade e traçar a rota desse patógeno até a Antártica", explica Adriana.
Os cientistas investigam se vírus podem chegar ao continente por aves migratórias ou correntes oceânicas — e também se o caminho inverso é possível. "A gente quer saber se esses patógenos podem, em um eventual degelo, ser carregados para a América do Sul ou outros continentes." Além disso, existe uma preocupação crescente com microrganismos antigos presos no gelo. "Solo e gelo congelados há milhares de anos estão sendo expostos ao ambiente. A gente ainda não sabe o que esse material contém e o que ele pode liberar."
Ao mesmo tempo, a Antártica pode esconder soluções para problemas médicos. Microrganismos que sobrevivem ao frio extremo desenvolveram estratégias bioquímicas únicas. Essa adaptação pode gerar compostos valiosos. "As enzimas que eles produzem são ouro. São uma fonte inesgotável de produtos que podem ser usados em processos industriais, em kits de diagnóstico e até em medicamentos." Segundo a pesquisadora, muitos desses organismos produzem substâncias antibióticas. "Como a competição por nutrientes é enorme, eles precisam produzir substâncias para inibir outros microrganismos. Por isso é muito comum que produzam compostos com ação antibiótica." Alguns também apresentam potencial antitumoral. "É uma linha que exploramos muito no projeto."
Impactos pessoais e a importância da pesquisa
Apesar da ciência ser o foco da missão, a experiência de viver na Antártica também transforma a forma como os pesquisadores enxergam o planeta. Para Adriana, um dos fenômenos mais impactantes é o chamado "esverdeamento" do continente. "A primeira coisa que a gente percebe é a perda de gelo. Dependendo da época do ano, quase não encontramos mais gelo em algumas áreas." Essa mudança reforça a importância da pesquisa científica no local.
Mas o aspecto humano também pesa. A distância da família é um dos maiores desafios. "Todo mundo sente falta da família. Você deixa sua vida no Brasil e ela continua acontecendo." Mesmo isolados, os pesquisadores precisam lidar com questões do cotidiano. "Você continua administrando se seu filho fez a lição de casa, se as coisas estão bem em casa." Por outro lado, a Antártica oferece momentos raros de contemplação. "A estação tem uma praia linda na frente. Às vezes você senta numa pedra, sozinho, olhando o mar e os pinguins." Nesses momentos, diz a pesquisadora, a dimensão da natureza fica evidente. "Você participa daquilo como observador. E isso é uma coisa que não tem preço."
Ao investigar microrganismos escondidos sob o gelo, o projeto da Fiocruz transforma a Antártica em um gigantesco laboratório natural. Ali, cientistas brasileiros buscam entender como vírus circulam entre continentes, monitorar possíveis ameaças à saúde global e descobrir compostos capazes de originar novos medicamentos. Entre o frio extremo, o vento constante e o brilho contínuo do sol polar, a ciência revela que o maior segredo do continente gelado não está no que se vê — mas no universo invisível que vive dentro dele.



