Os efeitos do conflito no Oriente Médio já atingem um dos pilares da economia brasileira: a construção civil. Em abril, praticamente todos os materiais utilizados nos canteiros de obra registraram aumento de preço. O concreto subiu mais de 4% em apenas um mês. Os tubos de PVC tiveram alta de 5%. Os blocos de construção ficaram 1,48% mais caros. O cimento apresentou elevação de 3%, enquanto os vergalhões de aço aumentaram quase 1%. A inflação não poupou nenhum insumo.
Renato Genioli, vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), explica a dificuldade do setor em lidar com esses aumentos: “Não temos como estocar concreto, nem grandes quantidades de aço ou blocos. A compra é constante e não há como guardar esses materiais para garantir um preço fixo”.
O principal fator por trás dessa alta é a valorização do petróleo no mercado internacional, consequência direta da guerra no Oriente Médio. O economista Alberto Ajzental, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), detalha: “Muitos materiais de construção civil são derivados de petróleo, como os tubos de plástico e o PVC usados em instalações hidráulicas. Quando o petróleo sobe, esses materiais sobem na mesma hora”.
O conflito no Oriente Médio criou um cenário de matérias-primas e energia mais caras, com os combustíveis pressionando os custos de frete e logística. O impacto já é mensurável no Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M), que corrige mensalmente o saldo devedor de imóveis comprados na planta. Em abril, o INCC-M subiu 1,04% em relação a março. Nos últimos 12 meses, a variação acumulada já ultrapassa 6%.
Essa realidade pegou muitos compradores de surpresa. A assistente de atendimento Maiara Aparecida de Brito Pereira e seu noivo adquiriram recentemente um apartamento com entrega prevista para 2029, próximo à data do casamento. No entanto, o valor das parcelas já sofrerá alteração. “Isso traz preocupação. Apesar de termos nos planejado e recalculado tudo para lidar com as primeiras parcelas até a entrega, a volatilidade acaba nos afetando”, afirma Maiara.
Para o economista Alberto Ajzental, a recomendação é deixar margem para imprevistos. “Alguns bancos aceitam comprometimento de renda de até 30%. Mas eu sugiro não comprometer mais de 20%. Se você compromete 20% e a inflação da construção supera sua reposição salarial, a parcela aumenta, mas você ainda tem uma margem para honrar o compromisso até o fim”, orienta.



