Avenida Mister Hull: a porta de entrada de Fortaleza que homenageia um aventureiro global
A Av. Mister Hull, localizada na Regional 3 de Fortaleza, serve como uma das principais vias de acesso à capital cearense, conectando bairros como Antônio Bezerra, Padre Andrade, Pici e Presidente Kennedy. No entanto, por trás desse nome, está a fascinante história de Francis Reginald Hull, um engenheiro britânico cuja biografia abrange desde a Inglaterra até lugares como África do Sul, Rússia e o atual Iraque. Suas contribuições ao Ceará, especialmente na implantação de ferrovias e em estudos meteorológicos, garantiram que seu nome fosse eternizado nesta avenida vital.
Da Inglaterra ao Ceará: as aventuras de Mister Hull pelo mundo
Nascido em Wimbledon, Londres, em 1872, Francis Hull chegou ao Brasil pela primeira vez aos 20 anos, trabalhando na São Paulo Railway. Após retornar à Inglaterra para estudos em astronomia e agrimensura, ele voltou ao Brasil em 1913, aos 41 anos, para assumir o cargo de superintendente-geral da Brazil North Eastern Railway. Nessa posição, foi responsável pelas ferrovias que ligavam Fortaleza a Sobral e Baturité, infraestruturas cruciais que impulsionaram a economia e a integração social do estado no início do século XX.
Antes de se estabelecer no Ceará, Mister Hull embarcou em missões internacionais variadas. Na África do Sul, ele foi encarregado de perfurar minas de ouro; no Reino Unido, supervisionou sistemas de abastecimento de água; no atual Iraque, serviu como Governador da Mesopotâmia durante a Primeira Guerra Mundial; e na Rússia, atuou como consultor militar ferroviário, recebendo condecorações do czar Nicolau II e do rei George V. Essas experiências globais moldaram sua expertise, que ele posteriormente aplicou no Brasil.
Vida em Fortaleza e legado duradouro
Em 1933, Mister Hull retornou ao Ceará para ficar, dedicando-se aos estudos sobre meteorologia e atuando como vice-cônsul britânico. Ele montou um observatório astronômico em sua casa, um sobrado próximo à Praia de Iracema, onde investigava a relação entre manchas solares e as secas no Ceará. Sua paixão pelo estado era evidente: participava ativamente da vida social de Fortaleza, frequentando clubes e organizando eventos, como bailes carnavalescos.
Seu trabalho sobre as secas, embora não mais utilizado na meteorologia moderna, foi pioneiro e contribuiu para o entendimento climático regional. Após sua morte em 1951, aos 78 anos, ele foi enterrado no cemitério São João Batista, contrariando seu desejo de ser lançado ao mar em uma jangada com a bandeira da Inglaterra. A avenida que leva seu nome, com cerca de seis quilômetros, simboliza seu impacto duradouro, ligando Fortaleza a Caucaia e servindo como um testemunho de sua dedicação ao desenvolvimento cearense.
Contexto regional e importância histórica
A Regional 3 de Fortaleza, onde a Av. Mister Hull está situada, inclui bairros como Quintino Cunha, Olavo Oliveira e Parquelândia, este último com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado médio, enquanto outros apresentam índices baixos ou muito baixos. Essa reportagem faz parte de uma série do g1 Ceará que explora histórias e curiosidades das regionais da capital, em preparação para os 300 anos de Fortaleza, completados em abril de 2026.
A vida de Mister Hull, descrita pelo astrônomo Rubens de Azevedo como digna de um romance épico, continua a inspirar. Seu filho, Julian Hull, seguiu seus passos acadêmicos, perpetuando o interesse pela biografia do pai. Através de suas contribuições ferroviárias e científicas, Mister Hull não apenas ajudou a moldar a infraestrutura do Ceará, mas também deixou um legado cultural que ressoa até hoje nas ruas e memórias de Fortaleza.



