Vila Maranhão em São Luís aguarda retorno de famílias após vazamento de fertilizantes
As onze famílias retiradas da Vila Maranhão, na zona rural de São Luís, ainda não retornaram às suas residências até esta sexta-feira (20), mesmo com o acordo estabelecido após o grave vazamento de fertilizantes na comunidade. De acordo com informações do advogado que representa os moradores, a nova previsão para o retorno seria na manhã de sábado (21), mas a situação permanece incerta.
Medidas de contenção em andamento
Uma equipe de reportagem acompanhou as ações implementadas para reduzir os impactos da contaminação ambiental. No local, máquinas trabalham ativamente na recuperação da via principal, enquanto a área por onde escorria o líquido verde característico dos fertilizantes já foi coberta com material de contenção. A Defesa Civil do Estado também esteve presente na comunidade nesta sexta-feira para avaliar as condições de segurança.
O transporte das famílias de volta às suas casas deve ser realizado pela empresa Valen Fertilizantes, conforme determinado durante audiência judicial. Entretanto, até o momento da apuração desta reportagem, nenhuma família havia sido reinstalada em seus lares.
Problemas de saúde e qualidade de vida comprometida
Moradores que permaneceram no bairro durante todo o processo relatam que a qualidade de vida ainda não apresentou melhorias significativas. "Quando mexe, o fedor é bem forte, sim, então continua prejudicando sim, porque o nosso vem pelo ar, tanto pela água como pelo ar e continua na mesma", desabafa um residente local.
Entre as principais queixas apresentadas pela comunidade estão:
- Dores de cabeça constantes
- Problemas dermatológicos diversos
- Morte de plantações e animais domésticos
- Dificuldades respiratórias agravadas
Falta de acesso à água potável
Um dos pontos mais críticos diz respeito ao fornecimento de água mineral. Apesar da empresa ter disponibilizado uma caixa d'água de 15 mil litros após as denúncias, e ter se comprometido a instalar outro reservatório durante audiência realizada na quinta-feira (19), muitos moradores enfrentam dificuldades para acessar o recurso.
"Para chegar até aqui, é preciso caminhar cerca de 500 metros. O que adianta ele estar nessa água? Ele desce água e o ar que a gente respira está poluído. Isso não é bom para nós, moradores da comunidade", relata outro residente que precisa percorrer longa distância para obter água potável.
Histórico de contaminação e exigências judiciais
A situação na Vila Maranhão tem antecedentes preocupantes. Ao todo, 71 famílias afirmam conviver com o despejo irregular de produtos químicos desde 2022, após a instalação da empresa Valen Fertilizantes e Armazéns na comunidade. O problema se intensificou dramaticamente no dia 2 de fevereiro deste ano, quando um vazamento de sulfato de amônia e ureia atingiu duas ruas do bairro.
Esses fertilizantes, quando lançados de forma irregular no ambiente, liberam partículas e gases tóxicos que aumentam significativamente os riscos de contaminação. Moradores suspeitam que o material químico tenha atingido a fonte que tradicionalmente abastece a comunidade.
Durante a audiência judicial realizada na quinta-feira (19), a Justiça analisou minuciosamente quais pontos da decisão já foram cumpridos e quais ainda demandam providências urgentes. Entre as exigências estabelecidas estão:
- Realização das atividades apenas em área interna e coberta
- Implantação de sistema de contenção adequado
- Instalação de estação de tratamento e decantação
- Aumento do número de caixas d'água disponíveis
- Fornecimento contínuo de água mineral às famílias afetadas
Laudo ambiental ainda não divulgado
A reportagem questionou a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) sobre a conclusão do laudo que avalia a qualidade da água na região e se os resultados interfeririam no retorno dos moradores. O órgão informou que todos os documentos técnicos já foram encaminhados ao Ministério Público para análise e tomada de decisões.
O caso ganhou dimensão quando cerca de onze famílias da Vila Maranhão tiveram que abandonar suas casas após o vazamento irregular de fertilizantes provocar sérios problemas de saúde e um forte odor químico em toda a região. A Sema iniciou investigações sobre a contaminação e realizou nova vistoria no dia 10 de fevereiro.
Moradores relatam desde então coceiras persistentes, agravamento de doenças respiratórias pré-existentes e desconforto constante. "Meu sobrinho é asmático. Por conta do fedor que ele estava inalando, claro que prejudicou a asma dele. Hoje ele se encontra num leito de UTI, o que não é fácil para uma mãe. Não é fácil para ninguém", emociona-se a dona de casa Lucineide Catanhede.
Especialistas alertam para os riscos prolongados da exposição a esses produtos químicos. "Esses fertilizantes podem gerar resíduos gasosos que, ao serem inalados, provocam problemas de saúde imediatos. Se ingeridos, ou em contato permanente com a pele, podem causar dermatites severas. Com a exposição prolongada, podem ocorrer processos infecciosos que podem evoluir, posteriormente, para condições mais graves como o câncer", explica o geógrafo Marcelino Farias.



