Indígenas desocupam porto da Cargill após 34 dias de protesto contra decreto de hidrovias
Indígenas deixam porto da Cargill após 34 dias de ocupação

Indígenas encerram ocupação histórica no porto da Cargill após vitória política

Após 34 dias de intensa mobilização, indígenas de diversas etnias iniciaram nesta quarta-feira (25) a desocupação da área do porto da Cargill, localizado em Santarém, no oeste do estado do Pará. O movimento, que reuniu representantes de 17 etnias diferentes provenientes do Pará e do Mato Grosso, tinha como principal reivindicação a revogação do Decreto 12.600, que autorizava estudos para concessões de hidrovias em rios da Amazônia.

Desmontagem do acampamento e normalização do acesso

Na manhã de quarta-feira, o cenário no porto começou a mudar significativamente. As barracas que serviam de abrigo durante mais de um mês foram sendo desmontadas, as estruturas improvisadas de cozinha foram retiradas e as barreiras que impediam a entrada de caminhões começaram a ser removidas, permitindo a gradual normalização do acesso à área portuária.

Os manifestantes solicitaram um prazo de 48 horas para completarem todo o processo de desocupação do espaço, que havia sido totalmente tomado desde o dia 22 de janeiro. Durante esse período, os indígenas montaram um acampamento completo na área de acesso ao terminal, com tendas, cozinhas improvisadas e barreiras físicas que paralisaram as operações regulares do porto.

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Motivações do protesto e declarações das lideranças

O cacique Gilson Tupinambá, uma das vozes mais ativas do movimento, explicou as razões por trás da ocupação prolongada. "Depois de muita luta, desde o dia 22 de janeiro, estivemos aqui em defesa do Tapajós e da nossa vida para revogar esse decreto 12.600, que para nós é arbitrário e inconstitucional", afirmou o líder indígena.

Ele destacou ainda que a decisão de ocupar o espaço foi estratégica: "Decidimos ocupar esse espaço para chamar a atenção do governo. A gente ficou aqui esses 34 dias porque houve necessidade. Agora estamos desmontando o acampamento para voltar para o nosso território, que é onde a gente quer viver".

O movimento também reforçou a importância do diálogo prévio com comunidades tradicionais antes da implementação de qualquer medida que afete povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas da região do Baixo Tapajós.

O que previa o decreto revogado

Editado em agosto de 2025, o Decreto 12.600 incluía empreendimentos públicos federais do setor hidroviário no Programa Nacional de Desestatização. O texto autorizava:

  • Estudos para concessões à iniciativa privada
  • Intervenções como dragagem e operação em trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins

Enquanto setores do agronegócio defendiam a dragagem para garantir a navegação de grandes embarcações durante o período de seca - o Rio Tapajós já é utilizado para o escoamento de grãos -, indígenas e comunidades tradicionais apontavam riscos ambientais e sociais significativos. Além disso, criticavam veementemente a ausência de consulta prévia, livre e informada, como prevê a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Revogação e desfecho do conflito

A revogação do decreto foi publicada no Diário Oficial da União após reuniões entre o governo federal e lideranças indígenas. O ato foi assinado pelo presidente em exercício, Geraldo Alckmin, durante viagem internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com o início da desocupação, a expectativa é que a área do porto da Cargill seja totalmente liberada nas próximas horas, encerrando assim uma das mais longas mobilizações indígenas já registradas na região do Baixo Tapajós. O movimento, que em um dos momentos de maior tensão chegou a ocupar a área administrativa da empresa, deixa como legado um importante precedente sobre a necessidade de consulta às comunidades tradicionais em projetos que afetam seus territórios e modos de vida.

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