Buriticupu: 40 anos de voçorocas ameaçam famílias e engolem casas no Maranhão
Há quase quatro décadas, o município de Buriticupu, localizado a 415 quilômetros de São Luís, no Maranhão, convive com um grave problema de erosões conhecidas como voçorocas. Esses abismos, que avançam sobre boa parte da cidade, já causaram a morte de sete pessoas e ameaçam diariamente a rotina de milhares de moradores. O fenômeno transformou Buriticupu em "a cidade das crateras gigantes", com 33 voçorocas catalogadas ao longo dos anos.
Crateras que engolem histórias e lares
As voçorocas em Buriticupu são formadas por areia, silte e argila, chegando a mais de 600 metros de extensão e 80 metros de profundidade. Desde o início do problema, 83 casas já foram destruídas ou engolidas pelas erosões. O presidente da Associação de Áreas Atingidas por Voçorocas, Isaías Cardoso Aguiar, explica que o fenômeno se intensificou a partir de 2015, acompanhando o crescimento desordenado da cidade para áreas vulneráveis.
"Até 2015, a população não tinha conhecimento das erosões. Existiam três que eram mais conhecidas, mas não incomodavam e não assustavam. A partir de 2015, a cidade cresceu mais e, com esse crescimento, veio acompanhado esse problema erosivo", afirmou Aguiar.
Uma das maiores crateras, localizada na Vila Santos Dumont, já engoliu 50 residências. No total, 360 famílias foram diretamente afetadas pelo avanço das erosões, enquanto centenas ainda vivem em áreas de risco.
Medo constante e abandono forçado
Durante o período chuvoso, o medo se torna uma realidade constante para os moradores. Eles relatam ouvir fortes estrondos durante a noite, provocados pelo desmoronamento das barreiras de terra, sinal de que as erosões continuam avançando. Em um ano, uma única cratera avançou cerca de 18 metros, partindo uma rua ao meio e desabrigando 16 famílias.
Geysa dos Santos, dona de casa, lamenta ver a destruição do imóvel onde cresceu: "Só de imaginar a casa em que eu cresci, onde eu brinquei nesse quintal, ver que o buraco está engolindo tudo é muito triste. E a gente sem saber o que fazer".
Na Rua da Independência, nove casas foram engolidas nos últimos três anos, e outras seis foram abandonadas por famílias que temiam os riscos. No entanto, muitos moradores, como Leudiane da Conceição, permanecem no local por falta de alternativas: "Medo da cratera engolir as casas. A gente dorme mesmo porque Deus dá força e coragem, porque não tem para onde ir".
Acidentes fatais e falta de sinalização
As voçorocas já provocaram a morte de sete pessoas em Buriticupu. De acordo com Isaías Cardoso Aguiar, muitos acidentes ocorreram devido à falta de sinalização adequada nas crateras. Recentemente, o idoso Francisco Cavalcante, de 72 anos, caiu em uma voçoroca durante a noite, sendo resgatado com fraturas. Em 2023, o policial militar aposentado José Ribamar Silveira caiu aproximadamente 80 metros dentro de uma cratera enquanto manobrava uma caminhonete.
Causas e possíveis soluções
As voçorocas são fenômenos geológicos acelerados pela ação da chuva e enxurradas em áreas com solo sem cobertura vegetal. Marcelino Farias, professor de Geografia da UFMA, atribui o problema ao crescimento urbano sem planejamento: "O que tem feito essas erosões aumentarem consideravelmente é o crescimento urbano sem planejamento. Não há um Plano Diretor que contemple essas mudanças urbanas".
Fernando Bezerra, professor da UEMA, sugere medidas preventivas: "A população que vive em torno das cabeceiras das voçorocas precisa ser retirada para evitar novas tragédias. Também é necessário desviar os fluxos de água que chegam às cabeceiras das erosões".
Medidas públicas e atrasos
O poder público implementou o aluguel social de R$ 500 para famílias desabrigadas, mas moradores reclamam de atrasos nos pagamentos. Desde 2023, o Governo Federal liberou R$ 9.733.169,07 para ações relacionadas às voçorocas, incluindo a construção de 89 casas. No entanto, das 27 casas prontas há cerca de um ano, nenhuma foi entregue, e 33 estão com obras paradas.
Jeferson dos Santos, universitário e morador afetado, expressa frustração: "A gente se sente incapacitado. A gente sente no corpo a negligência do serviço público".
Ação judicial e descumprimento
Em fevereiro de 2025, a Justiça determinou que o município adotasse medidas como isolamento e sinalização das áreas de risco, atualização do cadastro de famílias e garantia de aluguel social. A prefeitura recorreu da decisão, e o caso aguarda julgamento no Tribunal de Justiça do Maranhão. Recentemente, o prazo para apresentação de documentos comprovando o cumprimento das medidas expirou sem que o relatório fosse entregue.
O Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional afirmou que mais de R$ 50 milhões estão empenhados ou em análise para projetos de recuperação. Até o momento, a Prefeitura de Buriticupu não se manifestou sobre o caso.



