Rio Juruá apresenta leve redução, mas situação permanece crítica em Cruzeiro do Sul
O nível do Rio Juruá em Cruzeiro do Sul, interior do Acre, começou a apresentar uma redução, marcando 13,58 metros na medição das 6h desta terça-feira (7). Apesar dessa baixa de 26 centímetros em 24 horas, o manancial segue acima da cota de transbordo, estabelecida em 13 metros, mantendo a região em alerta máximo.
Famílias aguardam liberação para retornar às casas
Com a situação ainda instável, 62 famílias permanecem fora de suas residências, aguardando a liberação da Defesa Civil municipal para o retorno. Desse total, 59 famílias estão abrigadas em locais montados pela prefeitura, enquanto outras três foram acolhidas por parentes. A cheia afetou diretamente ou indiretamente cerca de 28.350 pessoas, o que corresponde a 7.087 famílias distribuídas em 12 bairros da zona urbana, 15 comunidades rurais e três vilas.
O governo estadual decretou situação de emergência no último domingo (5), abrangendo também os municípios de Feijó, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Tarauacá e Plácido de Castro. A medida segue para reconhecimento pelo governo federal.
Impactos severos na infraestrutura e serviços essenciais
A enchente provocou a interrupção de serviços básicos, agravando a vulnerabilidade das famílias afetadas:
- Suspensão da energia elétrica para 186 famílias
- Interrupção do abastecimento de água potável pela rede pública
- Paralisia do funcionamento de postos de saúde e escolas nas áreas inundadas
- Vias de acesso completamente alagadas
Para garantir água segura, o Serviço de Água e Esgoto do Estado do Acre (Saneacre) realizou uma ação emergencial com caminhão-pipa no bairro da Várzea na última sexta-feira (3).
Abrigos municipais e apoio estadual
A prefeitura de Cruzeiro do Sul disponibilizou seis escolas como abrigos temporários:
- Escola Rita de Cássia, no bairro Cruzeirão
- Escola Marcelino Champagnat, no bairro João Alves
- Escola Padre Arnoud, na AC-405, bairro Nossa Senhora das Graças
- Escola Thaumaturgo Azevedo, no bairro do Alumínio
- Escola Corazita Negreiros, no bairro Telégrafo
- Escola Estadual Cívico-Militar Madre Adelgundes Becker, no bairro Miritizal
Nos abrigos, são fornecidas três refeições diárias e atendimento social. A Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos (Seasdh) enviou 200 cestas básicas e 100 colchões para atender a população em vulnerabilidade, incluindo famílias desabrigadas e indígenas.
Relatos emocionantes dos moradores afetados
Manoel Edson, aposentado do bairro da Lagoa, um dos mais atingidos, decidiu permanecer em casa mesmo com os riscos: "Se eu sair daqui, não encontro nem a telha", afirmou, demonstrando o temor de perder seus pertences.
Gleiciane Silva, diarista que mora no mesmo bairro com seu filho de 6 anos, convive com água dentro de casa há mais de cinco dias. Ela precisou elevar móveis e eletrodomésticos para evitar danos, mas após a visita de uma equipe de apoio e com o filho doente por ter caído na água, decidiu pedir ajuda: "É porquê não tem para onde ir, eu estava sem dinheiro até para pagar carro e nem para comprar uma água eu tinha. Então, era ficar aqui mesmo. Deus me livre, já chorei tanto", relatou emocionada.
Maria Darclei Araújo, empregada doméstica já abrigada, expressou sua ansiedade: "Esperamos voltar logo para a nossa casa, porque temos que trabalhar, a gente trabalha".
Contexto histórico e outras áreas afetadas
Esta já é a quarta vez que o Rio Juruá transborda somente este ano. A cota de transbordo foi ultrapassada na última segunda-feira (30), mantendo o rio nessa situação há mais de uma semana. Na última sexta (3), o nível havia registrado 14,10 metros, afetando 19,6 mil pessoas na ocasião.
Historicamente, o período de maior ocorrência de cheias em Cruzeiro do Sul é entre o fim de fevereiro e o início de março, com registros também ao longo de abril. Nos últimos anos, as primeiras retiradas de famílias costumam ocorrer quando o rio atinge entre 13,50 metros e 13,60 metros.
A Defesa Civil informou que os rios Croa, Juruá Mirim e Valparaíso também apresentam elevação no nível das águas, ampliando a área de impacto na região.



